OPINIÃO | Privatiza que melhora? A recorrente incompetência do privado na gestão pública

Por Tiago Holzmann da Silva, arquiteto e urbanista, ex-presidente do IAB-RS

 

É curioso como os defensores do liberalismo à brasileira adoram posar de eficientes gestores — até o momento em que precisam, de fato, gerir alguma coisa. A lógica é simples: assumir o serviço público, iniciar o desmonte e entregar tudo de mão beijada para o “mercado”. Afinal, por que melhorar um serviço se você pode sucateá-lo, depois dizer que “não tem jeito” e logo entregá-lo para os “amigos”?

Porto Alegre, a nossa triste capital laboratorial da direita gerencial, é um exemplo didático desse modelo de “fracasso induzido”. A Carris, por exemplo, outrora uma das melhores empresas de transporte coletivo da América Latina, virou saco de pancada de prefeitos “modernizadores”. Aquela mesma Carris premiada, eficiente, com motoristas concursados, frota renovada e reconhecimento da população, virou alvo de um plano “salvador” que tinha por objetivo arruiná-la. Nada mais “eficiente” do que entregar o transporte coletivo nas mãos de uma iniciativa privada que só opera se tiver lucro garantido, subsídio público e compromisso nulo com a qualidade.

E o DMAE? Um dos poucos serviços públicos de saneamento municipal do Brasil. Com estrutura, pessoal técnico de carreira e capacidade de investimento — até ser colocado no cabide de intenções privatistas. Em vez de ampliar a rede e acelerar os investimentos, o que fez a gestão? Cortou, paralisou, terceirizou. Resultado? Sucateamento, obras paradas e uma população cada vez mais vulnerável e mal atendida.

Nem os espaços culturais escapam da sanha “empresarial”. O histórico Gasômetro, símbolo da cidade, da resistência e do patrimônio público, agora entrou no radar da privatização. Após investimentos públicos milionários, querem entregar a gestão ao privado “competente”, sem riscos, com baixíssimo investimento e lucros generosos e garantidos. Esse roteiro é o de sempre: entregam para algum “parceiro” — leia-se, uma empresa privada — que cobra até para entrar no banheiro. Vide o auditório Araújo Vianna, com “gestão de excelência” em cobrar muito caro por eventos e dificultar o acesso público ao espaço. A cultura, para esse povo, só merece a “gente de bem” e se render bom patrocínio — se for popular, com arte e cidadania, aí é “gasto”.

O mais caricato é ver como esses gestores liberais adoram terceirizar também a culpa. Quando o serviço vai mal, é “herança do passado”; quando vai bem, é a “eficiência da iniciativa privada”. No fundo, a única coisa que gerem com maestria é a arte de não se responsabilizar por nada.

No fim, o “choque de gestão” vira só um choque mesmo. Elétrico, se dependesse deles, em quem ousar defender o interesse público.

A incompetência dos representantes da iniciativa privada na gestão pública virou regra não escrita, mas aplicada com zelo: desmontam, terceirizam, precarizam — tudo em nome de uma suposta eficiência que nunca aparece.

Enquanto isso, seguimos vendo os serviços públicos serem destruídos por quem nunca acreditou neles — mas adora usá-los como trampolim para cargos maiores. Ou para aquela vaguinha no conselho da empresa que, adivinhe, comprou o que um dia foi de todos nós.

*artigo publicado originalmente em https://www.matinaljornalismo.com.br/parentese/pensata/privatiza-que-melhora-a-recorrente-incompetencia-do-privado-na-gestao-publica/