Cinco casais de amigos, escaladores e amantes da natureza, compartilharam o sonho de construir uma pequena vila com cinco casas e espaços comuns para passar fins de semana próximos à natureza do Parque Nacional da Serra do Cipó (MG). Famosa por suas cachoeiras, cânions e formações rochosas, a Serra do Cipó — chamada por Burle Marx de “jardim do Brasil” — foi o cenário escolhido para abrigar a Vila Iapó, nome de origem tupi que significa “rio de raízes”. O projeto nasceu de princípios coletivos e inegociáveis definidos pelos casais e arquitetos, guiados pelo respeito à paisagem e pela busca da sustentabilidade ambiental, social e construtiva.

O primeiro princípio determinou que a implantação das casas e dos espaços de uso comum respeitasse integralmente as árvores existentes no terreno. Cada volume foi posicionado de modo a preservar a vegetação, exigindo correções topográficas precisas e ajustes durante a obra. A definição dos níveis e a adequação à topografia reduziram drasticamente a necessidade de terraplanagem, resultando em uma ocupação leve e harmônica com o relevo natural. Assim, as árvores definiram o projeto, tornando-se protagonistas da implantação e da forma construída.

O segundo princípio orientou a solução arquitetônica das cinco casas, concebidas com base em dois gestos fundamentais de sustentabilidade e eficiência térmica. Os lados maiores dos volumes receberam vedações duplas — tijolos cerâmicos externos e blocos de concreto internos — criando paredes de alta inércia térmica, capazes de absorver e liberar calor gradualmente, assegurando conforto térmico e privacidade entre as unidades. As faces menores, por sua vez, foram projetadas para permitir aberturas amplas e contínuas, favorecendo a ventilação cruzada natural e o controle térmico sem dependência de sistemas artificiais. As coberturas de uma só água, inclinadas para os fundos, ampliam a altura das aberturas frontais e otimizam o fluxo de ar, reforçando a relação entre conforto e forma.

Outro princípio norteador foi o aproveitamento racional de recursos naturais. As coberturas funcionam como grandes coletores de água pluvial, conduzindo-a por meio de canaletas de concreto e gárgulas para reservatórios de armazenamento e tratamento. Paralelamente, sistemas de aquecimento solar reduzem o consumo de energia elétrica, reafirmando o compromisso ambiental do conjunto.

A sustentabilidade social e econômica também foi contemplada pela adoção de materiais construtivos e mão de obra locais. Tijolos, blocos, perfis metálicos e peças de madeira foram adquiridos de fornecedores da própria região, e a execução ficou a cargo de pequenos empreiteiros, marceneiros, serralheiros, eletricistas e bombeiros locais. Essa decisão reduziu custos e impactos ambientais com transporte, além de gerar desenvolvimento e engajamento comunitário. O canteiro foi mantido em escala reduzida, sem grandes maquinários ou movimentações intensas, minimizando interferências na fauna, na flora e na vizinhança.

Finalizada, a Vila Iapó traduz o sonho coletivo em arquitetura de convivência e respeito ambiental. Cada casa é independente, mas o conjunto se organiza em torno de princípios comuns de cooperação, partilha e harmonia com a paisagem. Mais do que um refúgio, o projeto representa a possibilidade real de integrar construção e natureza, demonstrando que é possível aliar conforto, racionalidade técnica e consciência ecológica.

A Vila Iapó materializa a utopia concreta de viver com simplicidade e pertencimento, onde a arquitetura não se impõe à paisagem, mas dela emerge. Um exemplo sensível de como a sustentabilidade — tantas vezes reduzida a discurso — pode se tornar prática cotidiana, expressa em cada decisão de implantação, em cada tijolo e em cada gesto de cuidado com o território.

Vila Iapó

🏆 Vencedor na Etapa Departamental do IAB/MG da Premiação Nacional do IAB 2025
🏅 Finalista da Etapa Nacional no Eixo I — Edificações

Cidade/UF: MG
Ano do projeto: 2020
Ano de conclusão da obra: 2021

Eixo / Categoria: Eixo I – Edificações /
Categoria 1.2 – Edifícios multifamiliares: Prédios residenciais de múltiplas unidades efetivamente executados ou como retrofit.
Modalidade: Projeto com obra executada

Proponente:

Autoria:
Carlos Alberto Maciel

Demais membros da equipe principal:
Alexandre Brasil, André Luiz Prado, Bruno Santa Cecília, Paula Zasnicoff Cardoso,
Carolina Miguez (Arquitetos Colaboradores)

Equipe ou instituições indiretamente envolvidas:
Arquitetura de interiores casas 4 e 5: Botti Arquitetura

Crédito das imagens:
Leonardo Finotti