O Restauradrilhos nasce da urgência evidenciada pelas enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul, que atingiram o Paço dos Açorianos — antiga sede da Prefeitura e hoje Museu do Paço. No salão principal, o piso de ladrilhos hidráulicos, instalado em 1901, apresenta desgaste da camada superior e perda parcial do baixo-relevo em áreas de maior fluxo. Fatores como modificações urbanas, alterações climáticas, insolação, umidade e variações térmicas promovem a fadiga dos materiais, agravada pela ausência de manutenção sistemática. Diante desse quadro, o projeto formula um protocolo replicável de conservação preventiva, capaz de responder a eventos extremos e orientar intervenções qualificadas em patrimônio edificado.
A metodologia organiza-se em três etapas: anamnese, diagnóstico e desenvolvimento técnico. Na anamnese, elaborou-se uma síntese do conjunto (dimensões normativa, histórica, espacial, tectônica, funcional, formal e de conservação), situando o papel do edifício, seu uso público e a relevância do piso no contexto arquitetônico. No diagnóstico, o mapeamento identificou patologias como defeito de fabricação, amarelamento, incrustações, resíduos de rejunte, manchas, interferências não originais, desagregação, alteração cromática, lacunas, sujidades, perda de elementos, cisalhamento e abrasão, delimitando as peças irrecuperáveis. Esse quadro embasa a diretriz central: repor somente o necessário, preservando o material original conforme os princípios de autenticidade e conservação arquitetônica.
O desenvolvimento técnico concentrou-se na viabilidade produtiva de peças de reposição compatíveis, sem descaracterização do conjunto. O fluxo integra digitalização 3D com scanners Artec EVA e Z+F Imager 5010C, processamento no Geomagic, modelagem CAD paramétrica em AutoCAD e Fusion 360, análise cromática (CIEDE2000) e fabricação de moldes com manufatura aditiva no LDSM/UFRGS e matrizes metálicas por usinagem CNC (Robodrill T14iFLa) em parceria com a Indústria iMER. Em colaboração com a Fábrica de Mosaicos de Pelotas, foram prototipadas peças com processo artesanal centenário, validando a compatibilidade tecnológica entre a matriz digital e o saber-fazer tradicional. O controle dimensional comparou modelos, matrizes e protótipos, atingindo erro RMS entre 0,11 mm e 0,23 mm, indicador de alta precisão geométrica e cromática.
Como produtos, o Restauradrilhos entrega: (i) protocolo metodológico completo para conservação de ladrilhos hidráulicos; (ii) matrizes e moldes de precisão aptos à replicação; (iii) protótipos validados por comparação geométrica e cromática; e (iv) manual técnico de uso, operação e manutenção preventiva, com diretrizes de assentamento, impermeabilização, limpeza e substituição pontual. Esses resultados configuram uma solução transferível e replicável, ancorada na cadeia produtiva local, apta a ser aplicada por gestores públicos, restauradores e equipes técnicas em contextos de risco climático.
O projeto alinha-se ao tema “Arquitetura e Urbanismo Adaptativos” e ao eixo “Emergências Climáticas” da Premiação Nacional do IAB/RS, propondo resposta técnica e culturalmente responsável a desastres ambientais. Reduz descarte, evita substituições generalizadas e fortalece a resiliência patrimonial. Ao integrar universidade, tecnologia e saber artesanal, o Restauradrilhos concilia ciência, indústria e tradição, contribuindo para a continuidade da cultura material e a preservação dos valores simbólicos do Paço dos Açorianos e de outros bens integrados a imóveis patrimoniais no Brasil.

Restauradrilhos

🏆 Vencedor na Etapa Departamental do IAB/RS da Premiação Nacional do IAB 2025
🏅 Finalista da Etapa Nacional no Eixo 4 – cultura arquitetônica

Cidade/UF: RS
Ano do projeto: 2019
Ano de conclusão da obra: 2025

Eixo / Categoria: Eixo 4 / Reprodução intelectual e reflexão crítica, inovação e desenvolvimento técnico
Modalidade: Projeto em execução

Proponente:

Autoria:
Arthur Thiago Thamay Medeiros

Demais membros da equipe principal:
Não informado pelo autor

Equipe ou instituições indiretamente envolvidas:
Fábrica de Mosaicos de Pelotas (produção artesanal de ladrilhos hidráulicos)
Laboratório de Design e Seleção de Materiais – LDSM/UFRGS (pesquisa e suporte técnico)
IMER (parceira industrial especializada em moldes e matrizes de alta precisão)
Prof. Fabio Pinto da Silva (orientação acadêmica – UFRGS/PGDesign)

Crédito das imagens:
Acervo próprio