Este trabalho estabelece um paralelo entre o potencial de desenvolvimento de infraestrutura verde e a requalificação de áreas urbanas centrais desocupadas, tendo como objeto de estudo a cidade de Novo Hamburgo, a 42 km de Porto Alegre. O crescimento urbano local estruturou-se em torno de eixos viários, núcleos comerciais e industriais, conformando novas centralidades. A expansão da Linha 1 do Trensurb, em 2014, reforçou a fragmentação do tecido urbano, configurando o território deste ensaio. A resposta projetual baseia-se na permacultura em contexto urbano e em sistemas agroflorestais como catalisadores de coesão social, mitigação climática e requalificação de vazios centrais.
Como em muitas cidades do século XX, o planejamento urbano focou na mobilidade e ignorou a complexidade do sistema urbano enquanto organismo vivo. Além de restabelecer a integração territorial, busca-se reconectar a identidade da população ao espaço urbano. A agricultura urbana surge como ferramenta para gerar vínculos locais, recriar legibilidade e fortalecer o sentimento de pertencimento.
A infraestrutura verde atua como mecanismo de mitigação climática, ampliando a permeabilidade do solo, reduzindo ilhas de calor e sequestrando carbono. As bacias de detenção integradas aos módulos produtivos controlam o escoamento superficial e permitem a infiltração de águas pluviais, mitigando inundações nas margens do Arroio Luiz Rau. Essa estratégia alia gestão hídrica e produtiva, regenera solos degradados e fortalece a resiliência ambiental. Ao articular vegetação, solo e água em sistema sintrópico, o projeto transforma passivos ambientais em infraestrutura ecológica de adaptação climática, alinhada aos objetivos de sustentabilidade e inovação reconhecidos pelo IAB.
A infraestrutura verde constitui elemento estruturante de percursos legíveis articulados ao modal ferroviário, transformando-o de barreira em costura territorial. Essa abordagem reverte a fragmentação socioespacial pelo uso produtivo de vazios urbanos, oferecendo experiências educativas e assegurando segurança alimentar. O princípio da mistura de usos, do Desenvolvimento Urbano Orientado ao Transporte, sustenta que a diversidade funcional potencializa a complementaridade entre áreas residenciais e produtivas, garantindo acesso a alimentos frescos num raio de 500 m. Reconectar-se à natureza em espaços ociosos propicia ar limpo, microclimas e alimentos de qualidade.
Delimitou-se uma faixa de 200 m para cada lado da Linha 1 do Trensurb para o mapeamento de lotes subutilizados. A presença do Arroio Luiz Rau acentua a fragmentação urbana e o risco de alagamentos. A proposta apoia-se em legislação municipal que institui hortas comunitárias e órgão gestor, estimulando geração de renda e agricultura familiar. O projeto organiza-se em macro, meso e microescala, com sete pontos de estudo e coleta de dados pelo método de Jan Gehl, obtendo 357 respostas a questionário on-line.
Os agentes atuantes incluem poder público, iniciativa privada e comunidade. A participação popular é central: garante mão de obra, engajamento e identidade local. A iniciativa privada atua como parceira na construção de equipamentos e beneficiamento da produção, alinhada à lógica de crescimento comunitário e responsabilidade compartilhada. O programa de necessidades divide-se em quatro etapas — produção, processamento, distribuição e consumo — com capacitação, oficinas, composteiras, estufas e restaurante plant-based.
O conceito formal sintetiza-se em linha, pontos e planos: a linha (trem e arroio) converte-se em percurso ativo; os pontos correspondem a módulos produtivos e de encontro; e os planos interligam leste–oeste, criando interstícios de lazer e convivência. O ensaio demonstra o potencial da agricultura urbana como estratégia de regeneração socioespacial, mitigação climática e fortalecimento da segurança alimentar, reafirmando o papel da arquitetura e do urbanismo na adaptação climática e justiça espacial.
Permacultura Urbana: Ensaio de Transformação da CIdade
🏆 Vencedor na Etapa Departamental do IAB/RS da Premiação Nacional do IAB 2025
🏅 Finalista da Etapa Nacional no Eixo 3 – urbanismo, arquitetura da paisagem, planejamento e cidades
Cidade/UF: RS
Ano do projeto: 2020
Ano de conclusão da obra: Não informado pelo autor
Eixo / Categoria: Eixo 3 / Categoria única
Modalidade: Trabalho fruto de estudo, proposta conceitual ou plano que não será executado
Proponente:
Sabrina Hennemann
Autoria:
Sabrina Hennemann
Demais membros da equipe principal:
Não informado pelo autor
Equipe ou instituições indiretamente envolvidas:
Não informado pelo autor
Crédito das imagens:
Débora Boniatti
