Um padrão técnico regula parâmetros e objetivos com base em princípios científicos. Mas também realiza algo mais: em suas orientações, ele transporta disposições, prioridades, convicções, ideologias. Um padrão não é apenas um instrumento técnico, é também um veículo de valores sociais.
A pesquisa deste trabalho foi inicialmente realizada em um doutorado defendido na FAUUSP em 2019. A partir de 2021, já com afiliação institucional à UFSC, a tese foi editada e ampliada com dados da pandemia, sendo publicada pela Annablume em 2024. O livro “O espaço sob padrões globais” examina um caso específico de padrão técnico: o LEED®, o sistema de avaliação ambiental em arquitetura e urbanismo mais difundido no mundo e no Brasil, administrado pela organização sem fins lucrativos USGBC.
O LEED® não só estabelece metas de desempenho na arquitetura e no urbanismo, em categorias de localização urbana, eficiência hídrica e energética e uso de materiais, como também certifica os projetos, que são avaliados e ranqueados. Embora o LEED® já tenha sido objeto de ampla crítica técnica, ele ainda não havia sido estudado como instrumento social. Situado na área de história e teoria da arquitetura e do urbanismo, o livro investiga seus criadores e obras fundamentais.
Quem criou o LEED®? Em razão de sua aparência objetiva e de seu caráter técnico, os padrões resistem à interpretação histórica, deixando poucas pistas de seus dissensos. Por meio de entrevistas, autobiografias, notícias e documentos, o livro narra o surgimento do USGBC nos Estados Unidos – cuja fundação reuniu um incorporador imobiliário, um advogado especializado em direito ambiental e um diretor de marketing de uma empresa de ar-condicionado –, a sua disseminação mundial e a sua chegada ao Brasil – trazido pela cônsul-geral da Tailândia.
Quais são os valores – sociais e econômicos – do LEED®? Por meio dos discursos de seus promotores, revela-se a estrutura ideológica que sustenta o sistema. O LEED® está alinhado à “modernização ecológica”, uma corrente da sociologia ambiental que suprime as contradições entre ecologia e economia ao ver o ambientalismo como uma nova fronteira de acumulação capitalista. Com base em dados imobiliários e lâminas de fundos de investimento, o livro analisa como o LEED® se dissemina com um discurso de vantagens competitivas. O símbolo de marca registrada no acrônimo é indício de seu desígnio: mais do que um padrão técnico, é um produto comercializado que busca se sobressair no mercado.
Há um padrão espacial no sistema técnico? Por um lado, examina-se as potencialidades espaciais imanentes ao LEED, em sua aplicação ideal. Por outro, suas diretrizes são contrapostas à análise empírica de obras selecionadas, sobretudo nos centros corporativos de São Paulo. As partes 3 e 4 do livro desenvolvem os padrões espaciais do LEED® em termos de localização urbana, implantação no lote, tipologia e tratamento de fachadas. Argumenta-se, em especial, que o LEED® depende tanto de materiais sofisticados e de alto desempenho (como vidros de qualidade superior nas fachadas), quanto de estratégias ativas de regulação térmica (como equipamentos eficientes de ar-condicionado e iluminação). É difícil, portanto, a certificação de obras de menor custo, com materiais simples e sem acesso a sistemas prediais avançados. O livro explora as contradições não só entre a potencialidade dos sistemas e as demandas empíricas, mas também entre os diversos sistemas sob a marca LEED®, nem sempre convergentes em sua visão de sustentabilidade.
No percurso proposto, os padrões técnicos deixam de ser um discurso científico neutro para se tornarem agentes de produção do espaço que franqueiam a circulação global de investimentos financeiros e formas espaciais. O LEED® é vinculado, assim, a uma história corporativa, a uma ecologia reificada e comercializável, a estratégias projetuais da arquitetura, a processos de remodelação de espaços privilegiados nas metrópoles e a técnicas de viabilização da globalização.

O espaço sob padrões globais

🏆 Vencedor na Etapa Departamental do IAB/SC da Premiação Nacional do IAB 2025
🏅 Finalista da Etapa Nacional no Eixo 4 – cultura arquitetônica

Cidade/UF: SC
Ano do projeto: 2014
Ano de conclusão da obra: 2024

Eixo / Categoria: Eixo 4 / Categoria única
Modalidade: Produção acadêmica, científica ou editorial

Proponente:

Raphael Grazziano

Autoria:
Raphael Grazziano

Demais membros da equipe principal:
Não informado pelo autor

Equipe ou instituições indiretamente envolvidas:
Editora Annablume (Publicação)
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (Doutorado Direto)
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Financiamento da Pesquisa)
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Financiamento da Pesquisa)
Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Santa Catarina (Afiliação Institucional)

Crédito das imagens:
Raphael Grazziano