O Espaço de Infância Guarani Kyringue Arandua, localizado na Aldeia Yynn Moroti Wherá, em Biguaçu/SC, é fruto de uma prática integrada de ensino, pesquisa e extensão que articula arquitetura, cultura, território e educação. O projeto nasceu de um sonho coletivo da comunidade Guarani e foi idealizado por Silvana Minduá Veríssimo, professora e pesquisadora indígena Guarani e mestranda em Educação Infantil pela UFSC, que vislumbrou um espaço para acolher as crianças de 3 a 6 anos da aldeia e fortalecer a transmissão dos saberes ancestrais por meio da educação e do brincar.
A trajetória do Kyringue Arandua foi conduzida por uma equipe de gestão inteiramente feminina, que reuniu sensibilidade, técnica e compromisso comunitário. Silvana Minduá Veríssimo liderou a concepção pedagógica e cultural; Karina Figueiró, Marina Risi e Ana Ruivo coordenaram a mobilização, a articulação de parcerias e o acompanhamento das etapas de obra; e o escritório Baixo Impacto Arquitetura integrou o grupo como parte técnica, contribuindo com o desenvolvimento do projeto arquitetônico e ministrando oficinas formativas voltadas à bioconstrução e ao diálogo entre saber técnico e ancestral.
O processo foi marcado por metodologias participativas, decoloniais e interdisciplinares, envolvendo a comunidade Guarani, lideranças, mães, professores e técnicos em um percurso de aprendizado coletivo. A construção foi realizada em mutirão, ao longo de oficinas e vivências práticas, transformando o canteiro em espaço de formação e convivência. A Da Terra Bioconstrução teve papel essencial na execução e facilitação das etapas construtivas, aplicando com maestria e sensibilidade técnicas de terra crua, madeira e cobertura verde. O escritório Terral Arquitetura também integrou todo o processo, contribuindo para a consolidação do projeto.
O projeto também contou com a contribuição da empresa Emboá – Saneamento Ecológico, responsável por desenvolver e implementar o sistema de tratamento ecológico de efluentes, pautado em princípios de educação ambiental e regeneração. Essa abordagem integra o ciclo da água ao cotidiano da escola, devolvendo-a limpa à natureza e reforçando o compromisso do projeto com práticas sustentáveis e pedagógicas.
Arquitetonicamente, o Kyringue Arandua é um espaço feito de materiais naturais — terra, pedra, madeira e vegetação —, em harmonia com o território e os modos de vida Guarani. Seu espaço central octogonal é coberto por uma viga recíproca, estrutura em que cada elemento sustenta o outro, simbolizando a interdependência e a cooperação que fundamentam tanto a filosofia Guarani quanto o processo coletivo de ensino e construção.
Após a conclusão da obra, o Kyringue Arandua foi incorporado à rede municipal de ensino de Biguaçu, tornando-se uma escola pública indígena. Professores formados em Licenciatura Intercultural Indígena, pertencentes à própria aldeia, conduzem as atividades pedagógicas, fortalecendo a educação como continuidade cultural e pertencimento. Assim, o espaço transcende o papel institucional e se afirma como território de aprendizagem, identidade e resistência.
O projeto foi fortalecido por ações de extensão e mobilização cultural, como festivais e eventos colaborativos que reuniram arte, música e espiritualidade em apoio à infância Guarani. Essas iniciativas ampliaram a rede de solidariedade e promoveram a valorização da diversidade étnica e cultural.
O Kyringue Arandua é, portanto, um exemplo vivo de prática formativa e transformadora em arquitetura, guiada por mulheres, saberes locais e pela força da coletividade. Integra ensino, pesquisa e extensão em uma experiência sensível e crítica, que une sustentabilidade, cultura e infância. Mais do que uma escola, é um símbolo de continuidade, cuidado e futuro compartilhado.

Kyringue Arandua: Espaço de Infância Guarani

🏆 Vencedor na Etapa Departamental do IAB/SC da Premiação Nacional do IAB 2025
🏅 Finalista da Etapa Nacional no Eixo 5 – práticas pedagógicas

Cidade/UF: SC
Ano do projeto: 2022
Ano de conclusão da obra: 2023

Eixo / Categoria: Eixo 5 / Categoria única
Modalidade: Projeto com obra executada

Proponente:

Baixo Impacto Arquitetura
https://www.arqbaixoimpacto.com.br/

Autoria:
Carolina Dal Soglio, Paulo Rodriguez

Demais membros da equipe principal:
Ana Ruivo (Arquiteta Coautora Internacional)
Ana Flávia Boni Colle, Maria Fernanda Serrailla, João Armondi (Arquitetos Colaboradores)

Equipe ou instituições indiretamente envolvidas:
Kyringue Arandua (Promotor contratante)
Emboá Saneamento Ecológico (Projeto hidrossanitário)
Da Terra Construção (empreitada geral)

Crédito das imagens:
Acervo Kyringue Arandua