“O que transforma o velho no novo, bendito fruto do povo será.”
Belchior serviu de trilha e acompanhou as decisões que deram forma a este projeto.
Fomos convidados a desenvolver desde o Master Plan até o conjunto de edificações da Reserva Ambiental Energia das Nascentes, em Belo Jardim, no coração do agreste pernambucano — território de serras úmidas e do brejo de altitude como o bioma de transição entre a caatinga e mata atlântica, e onde nascem as águas do Rio Bitury, que abastece a cidade e simboliza o elo vital entre paisagem e comunidade.
A Reserva existirá para proteger as nascentes, para integrar a comunidade com essa missão e para comunicar e educar sobre a sua grande importância. Desde o primeiro contato com o lugar, ficou claro que o projeto deveria revelar o valor das origens: preservar as nascentes e transformar a arquitetura em instrumento de educação ambiental e convivência. O Centro de Convivências é a primeira peça concluída de um projeto mais amplo que vem inaugurar um novo tempo e uso para a fazenda tão viva e significativa no passado.
A antiga cocheira em ruínas, prestes a ser demolida, tornou-se o marco do tempo, a matéria que ancora a memória. O cocho, antes abrigo de ração, converteu-se em jardineira viva; as colunas corroídas pelo tempo foram estabilizadas e passaram a “sustentar” a nova construção de forma poética. Elas sustentam a intenção e não o peso.
A operação não é nostálgica: é o reconhecimento de que o velho, ressignificado, é o primeiro gesto de sustentabilidade.
A nova coberta inclinada se abre no ângulo preciso e enquadra a vista da cachoeira. O edifício é aberto, ventilado, sombreado e integralmente permeável à paisagem. As soluções técnicas — captação de águas pluviais, drenagem natural, uso de materiais locais e reversíveis, ventilação cruzada e controle solar — compõem um sistema integrado de eficiência ambiental.
A coerência conceitual emerge da atitude projetual: em vez de apagar o existente, o projeto propõe um diálogo entre ruína e abrigo, entre passado e futuro. A reabilitação da cocheira e o uso de técnicas construtivas acertadas configuram uma intenção de projeto clara de marcar o tempo do novo e reconhecer o antigo. Cada decisão técnica se vincula a um sentido poético e ambiental.
O edifício é um gesto de inserção territorial, Ele dialoga com a ruína vizinha, que no futuro irá ocupar a parte educacional do projeto. As inclinações da sua cobertura foram cuidadosamente alinhadas com os ângulos das empenas das antigas baias.
A comunidade está inserida com a guarda e conservação do espaço, e hoje já são brigadistas treinados para combater focos de incêndio na mata e guias que acompanham os visitantes na trilha que leva até a cachoeira. A coberta é um espaço de uso coletivo, destinado tanto à comunidade quanto aos visitantes. O impacto sociocultural se dá pela aproximação entre arquitetura e cidadania, transformando o edifício em plataforma de convivência e aprendizagem.
Inserido na temática das Emergências Climáticas, o projeto se posiciona como resposta concreta e simbólica às crises contemporâneas. Em vez de apenas mitigar danos, busca regenerar relações: entre o construído e o natural, o técnico e o ancestral, o humano e o hídrico. A arquitetura torna-se mediadora entre memória e futuro.
Como contribuição ao debate contemporâneo da arquitetura brasileira, o projeto reafirma que a inovação não está apenas na forma, mas no modo de escutar e intervir. Defende uma arquitetura que nasce de dentro, das urgências do clima, da história e da paisagem.
Por fim, a obra expressa pluralidade e relevância pública: é fruto da colaboração entre profissionais, comunidade, instituição e natureza. Sua presença discreta, ao mesmo tempo técnica e afetiva, devolve ao lugar o valor do encontro. O Centro de Convivências da Reserva Ambiental na Vila Taboquinha é, assim, um edifício-manifesto, onde o antigo e o novo se misturam, animando até o moribundo e velho tamboril a renascer com galhos novos.

Centro de Convivência da Reserva Ambiental na Vila Taboquinha

🏆 Vencedor na Etapa Departamental do IAB/PE da Premiação Nacional do IAB 2025
🏅 Finalista da Etapa Nacional no Eixo 1 – edificações

Cidade/UF: PE
Ano do projeto: 2024
Ano de conclusão da obra: 2024

Eixo / Categoria: Eixo 1 / Categoria única
Modalidade: Projeto com obra executada

Proponente:

Pablo Patriota Arquitetos Associados

Autoria:
Pablo Patriota

Demais membros da equipe principal:
Renildy Gama, Renata Brito, Andressa Collin, Mariana Lopes, Cléber Cabral, Arthur Holanda, Sergio Amaral (arquitetos colaboradores)
Verd’Fica (Paisagismo)
Sebastião Neto (Projetos Complementares)
Mendes Vasconcelos (Construção)
Equipe Ema Carpinteiro (Coberta)
Walter Dias (fotografias)

Equipe ou instituições indiretamente envolvidas:
Não informado pelo autor

Crédito das imagens:
Walter Dias