O conceito desta casa toma em conta sua situação, num terreno de esquina e frente ao mar, bastante exposto às intempéries. Todo o programa se distribui entorno de um pátio central, invertendo a lógica das tradicionais varandas periféricas. Esse princípio introvertido permite uma circulação interna entre os diversos espaços sempre em contato com o exterior. Descoberto, o pátio acolhe o sol e a chuva em seu jardim. Grandes portas pivotantes transformam o pátio em espaço visualmente conectado com o mar.
Materiais naturais e de proximidade
TERRA
As paredes de taipa utilizam terra vinda de escavações realizadas na própria ilha. Diversos tipos de terra foram testados antes de escolher a mais adequada, tanto pela sua composição como pelo seu aspecto. Afim de aumentar a resistência da taipa à exposição ao vento marítimo, foi incluído na massa o cimento (8%) como estabilizante.
Vale ressaltar que o emprego da taipa de pilão não é comum na região, apesar de encontrarmos o uso dessa técnica tradicional em algumas construções antigas de Salvador, à exemplo do forte de Santo Antônio.
A taipa tem qualidades térmicas excepcionais. A terra age como reguladora de humidade, sua inércia permite uma lenta variação de temperatura, resultando em um maior conforto para seus habitantes — sem recorrer ao ar-condicionado — com economia de energia.
Nas últimas décadas o uso da taipa de pilão vem crescendo em diversos países, inclusive no Brasil. Uma equipe local foi formada para a execução das paredes de taipa realizadas in situ, com emprego de formas metálicas. Essa experiência foi enriquecedora para todos aqueles que participaram da obra, fiéis do resultado. Também proporcionou uma aula prática de bio construção, em colaboração com professores da FAUFBA.
PEDRA
A fundação da casa é concebida em muro de concreto ciclópico, uma técnica contemporânea inspirado numa técnica milenar, que consistia na superposição de grandes blocos de pedra sem uso de argamassa. O objetivo aqui é o de reduzir o impacto CO2, restringindo o uso do cimento, com a incorporação de grandes pedras no embasamento das paredes de taipa. Além disso, o concreto ciclópico não necessita de armadura.
MADEIRA
O telhado de quatro águas possui um amplo beiral para proteger as paredes de taipa. A forma das tesouras é pensada de modo a criar um duplo beiral, protegendo tanto as paredes em fachada como aquelas situadas em torno ao pátio. O espaçamento reduzido entre elas permite o uso de seções menores e mais fáceis de manusear. O fechamento vertical das tesouras é realizado com forro em madeira ipê, enquanto a estrutura do telhado é realizada em maçaranduba, e a cobertura com telhas cerâmicas planas.
O piso recorre à técnica tradicional do cimento queimado afagado, unificando todos os espaços da casa.
Economia Circular
Diversos materiais de reuso foram empregados na construção. Portas de antigas edificações e de estilos diversos são recuperadas e adaptadas in situ; as ferragens também são de reuso e oriundas de um armazém de revenda; peças de madeiras do deck da antiga casa encontram novo uso como fechamento da área de serviço. Garrafas recolhidas por uma cooperativa de reciclagem são valorizadas como vedação dos banheiros, enquanto tijolos cerâmicos de demolição são reutilizados para o revestimento do piso do chuveiro exterior e construção de um forno de pizza. Também as sobras do madeirame do telhado foram aproveitadas para confecção de prateleiras, bancadas e armários.
Valorização de saberes e fazeres ancestrais
A ilha de Itaparica está situada na região do Recôncavo Baiano, à proximidade de Maragogipinho, distrito da cidade de Aratuípe, conhecida como o maior centro cerâmico da América Latina. Ali centenas de mestres ceramistas perpetuam a tradição da produção artesanal do barro, de geração em geração, por mais de três séculos.
Inspirados na produção local e por seus saberes, pudemos desenvolver diversas peças da casa, luminárias, cerâmicas e lavatórios junto à três desses mestres.
Casa da Terra
🏆 Vencedor na Etapa Departamental do IAB/SE da Premiação Nacional do IAB 2025
🏅 Finalista da Etapa Nacional no Eixo 1 – edificações
Cidade/UF: SE
Ano do projeto: 2024
Ano de conclusão da obra: 2025
Eixo / Categoria: Eixo 1 / Categoria única
Modalidade: Projeto com obra executada
Proponente:
Olivia de Oliveira
www.bo-a.ch
Autoria:
Olivia de Oliveira, butikofer de oliveira architectes
Demais membros da equipe principal:
Serge Butikofer (Arquiteto Associado)
Felipe Pinheiro, Ecosapiens soluções em sustentabilidade (Estrutura)
Rodrigo Rocha e Mathias Joseph Monios, Goya arquitetura (ConsultoriaTaipa de Pilão)
Cristino Macário dos Santos (Mestre de Obras)
Roberto Marcos da Silva, Paulo Rocha dos Santos (Profissionais da Construção)
Wilson Bonfim da Mota, Bruno Santana de Oliveira, José Carlos Brito, Ronaldo Bonfim, Reinaldo, Josemar, Gilles Butikofer e Lila Butikofer (Ajudantes)
Jorge Francisco dos Santos (Carpintaria Telhado)
Gilles Butikofer (Maquete física)
Equipe ou instituições indiretamente envolvidas:
Kouzo Nishiguti (Consultoria Projeto Elétrico)
Assis Kit e Itamar móveis (Marcenaria)
HD elétrica (Instalações Elétricas)
Jorge Francisco dos Santos Junior (Pintor)
Barramix (Paisagismo)
Aldair Souza, Taurino Silva, Guilherme dos Santos (Artesãos Peças Cerâmicas)
Crédito das imagens:
olivia de oliveira
Obra
