Toda cidade de se transforma. Na escala da casa, os filhos se tornam mais velhos e se mudam, liberando quartos que se transformam em escritórios; os pais envelhecem, abandonando casas para voltar a morar na companhia de filhos ou cuidadores. Pequenas mudanças no plano diretor fazem com que casas percam seu valor de imóvel para serem vistas apenas como terrenos — grandes demolições abrem caminho para novos moradores ou para o mercado de investimentos. Por trás de um mundo contemporâneo dito digital, ao qual se associam palavras imateriais como nevoeiros, persiste um universo material que, por conveniência, esquecemos.
A Arquivo é um projeto de Salvador dedicado ao reuso de materiais de construção. Diariamente, uma equipe percorre edifícios a serem demolidos ou transformados radicalmente, atuando como última barreira entre o resgate e o descarte. Elementos selecionados são cuidadosamente desmontados e transferidos para um estoque.
O estoque atua como casa temporária para elementos de arquitetura. Check-in, triagem e catalogação, recuperação e revenda acontecem na sede, que permitiu o resgate de mais de trezentas toneladas de materiais ao longo de quatro anos. Um site disponibiliza os elementos— com descrição, fotos e medidas — a arquitetos e clientes. Toda a operação, que inclui ainda o braço de consultorias, mapeamento de materiais reutilizáveis, capacitação de equipes para desmontagem e assistência a arquitetos que busquem maximizar o reuso em seus projetos — emprega 7 funcionários e 3 estagiários, além de garantir trabalho contínuo para mestres de ofício. Uma infraestrutura de circo resolve a imprevisibilidade da presença no terreno – cedido por uma construtora que incorporará o local futuramente (um uso temporário muito mais útil que os estacionamentos ou farmácias de especulação imobiliária).
Semanalmente, caminhões retiram materiais do estoque e os levam para novas construções. Casas (formais e informais), restaurantes e reformas de apartamentos ainda são os principais consumidores da Arquivo. Grandes empreendimentos são clientes da desmontagem, mas raramente da reinserção.
O papel exercido por outros arquitetos é fundamental. De nada adianta desmontar e estocar materiais se não há quem os reinsira em projetos e obras. Entender o arquiteto como um prescritor de materiais é peça fundamental para entender sua função na nova economia. Se para os modernos, gerar demanda de concreto e aço nacionais era visto como um modo de fomentar o crescimento da indústria e do país, a crise atual nos obriga a perguntar: como desenhar para promover menos extração, menos indústria e mais investimento em adaptações e restaurações? A formação universitária e a prática da arquitetura brasileira nos prepararam pouco mas, aos poucos, a Arquivo e seus clientes têm aprendido a estabelecer um diálogo entre o projeto e o material encontrado — onde nem sempre o projeto é quem manda.
A arquitetura resultante desse projeto frequentemente é um amálgama de partes de cidade, mas o contrário também acontece: a dissolução de um prédio em dezenas de pequenas reformas. Ser conceitualmente uma colagem não implica necessariamente em parecer com uma: para alguns arquitetos, soluções de pintura ou combinações de materiais e desenho proporcionam soluções onde, frequentemente, o reutilizado não seria reconhecido sem uma placa. Em outras situações, criar a partir de elementos reutilizados de outras fontes dentro de imóveis históricos tombados questiona o princípio de distinguibilidade em intervenções patrimoniais — misturando o velho-novo com o velho-velho de modo a intencionalmente confundir.
Entre desmontagem e reinserção, a maioria das peças percorre menos que 10km, distância drasticamente inferior à percorrida por elementos reciclados ou novos. Após a reinstalação, os materiais iniciam um novo ciclo de vida no novo espaço, de onde serão eventualmente desmontados, idealmente em um mundo mais preparado para lidar com eles.
Arquivo: Arquitetura a partir de materiais reutilizados
🏆 Vencedor na Etapa Departamental do IAB/SE da Premiação Nacional do IAB 2025
🏅 Finalista da Etapa Nacional no Eixo 4 – cultura arquitetônica
Cidade/UF: SE
Ano do projeto: 2020
Ano de conclusão da obra: obra contínua
Eixo / Categoria: Eixo 4 / Categoria única
Modalidade: Projeto com obra executada
Proponente:
Pedro Alban
arquivoreuso.com.br
Autoria:
Pedro Alban
Demais membros da equipe principal:
Fernanda Veiga e Natália Lessa (Sócias)
Fernanda Góes (Logística)
Vitor Santos e José Manoel Amoedo (Estoque)
Diego Anjos (Marcenaria)
Leandro Andrade (Vendas)
Ana Bauer, Clarissa Rocha, Érica Winter, João Carlos Ferreira, Juliana Souza, Paula Mussi, Rafaela Agra (Estagiários)
Equipe ou instituições indiretamente envolvidas:
Grupo Civil (Aceleradora)
Crédito das imagens:
João Carlos Ferreira: @ojoaocarlos_ferreira
Paula Mussi: @paula_mussi
Pedro Alban: @pedroalbanc
Manuel Sá: @omanuelsa
