Arquitetura do Estado de Trânsito

Frequentemente tratadas como simples aparatos de mobilidade, as infraestruturas de trânsito do Rio de Janeiro abrigam potenciais políticos e ambientais ainda pouco explorados. Elas materializam o estado de trânsito — a condição urbana regional e a forma coletiva cotidiana da metrópole. Este livro propõe quatro estratégias de projeto arquitetônico que atuam sobre infraestruturas existentes, estimulando seus potenciais coletivos.

O estado de trânsito

A mobilidade no Rio impõe um tempo coletivo inevitável: o deslocamento médio é de duas horas e 21 minutos, o mais longo do país. Essa condição, especialmente severa para moradores das periferias, naturaliza um “estado de trânsito” cotidiano e precário.

Não-lugar

Embora criadas para experiências coletivas, as infraestruturas de trânsito são tratadas como apolíticas, reduzidas a soluções técnicas de engenharia. No Rio, essa visão empobrece o debate sobre o espaço público, gerando quilômetros de linhas e nós — ferrovias, rodovias, viadutos, pontes, estações — pensados apenas para atender demandas funcionais. A escassez de recursos reforça soluções simplistas que negligenciam dimensões coletivas e políticas.

A arquitetura e o urbanismo, por sua vez, tratam o tempo perdido no trânsito apenas como problema de mobilidade, respondendo com expansões de rede ou aumento de densidade. No entanto, a periferia metropolitana do Rio já está entre as mais densas e dependentes da América Latina, o que desafia essas abordagens.

Os espaços de trânsito são ainda descritos como “não lugares”: ambientes incapazes de constituir um lócus de política ou cultura coletiva. Projetar ou reformar infraestruturas segue sendo tarefa técnica voltada a fluxo e segurança, restringindo seu potencial.

Transição

Diante disso, emergem duas perguntas: de que modo as infraestruturas de trânsito já conformam, ainda que de forma não planejada, o aparecimento coletivo? E como atuar sobre as infraestruturas herdadas, reforçando seus potenciais coletivos e políticos?

Este livro oferece respostas por meio de estratégias de projeto que ampliam a dimensão pública da experiência metropolitana, sobretudo nas periferias. Defendemos projetar infraestruturas como arquiteturas públicas multifuncionais — não apenas espaços de mobilidade — como urgência política, social e ambiental. Mais do que novas obras, trata-se de reutilização adaptativa e transição infraestrutural.

Inserção

Em contraposição a projetos ex nihilo, propomos atuar ex materia, a partir do material existente da cidade. Chamamos esse método de Inserção: a introdução crítica de um novo elemento em um contexto herdado, capaz de atualizar funções sem romper regras fundamentais.

A Inserção pode ser sutil — manipulando normas já dadas — ou explícita, adicionando camadas visíveis de significado e uso. Dialoga com práticas de reuso adaptativo, centrais para enfrentar a crise climática e a escassez de recursos. O livro propõe quatro Inserções a partir das infraestruturas de trânsito: o Clube, a Estufa, o Banquete e a Piscina.

Estrutura

O livro organiza-se em onze capítulos e quatro estratégias. O primeiro apresenta a questão central: a ausência de estratégias de projeto que reforcem dimensões coletivas e políticas dos espaços de trânsito. O segundo discute o potencial político do estado de trânsito e o terceiro aprofunda o método das Inserções — formando a primeira parte do livro.

A segunda parte analisa as infraestruturas em quatro grupos, cada um com uma condição, uma representação arquitetônica e uma estratégia de projeto. Esses grupos podem se sobrepor, coexistindo em diferentes níveis. As ideias apresentadas são pontos de partida para novas leituras arquitetônicas e políticas do trânsito metropolitano.

Arquitetura do Estado de Trânsito

🏆 Vencedor na Etapa Departamental do IAB/RJ da Premiação Nacional do IAB 2025
🏅 Finalista da Etapa Nacional no Eixo 4 – cultura arquitetônica

Cidade/UF: RJ
Ano do projeto: 2025
Ano de conclusão da obra: Não informado pelo autor

Eixo / Categoria: Eixo 4 / Publicações
Modalidade: Projeto com obra executada

Proponente:

Autoria:
Cauê Capillé e Thiago Soveral

Demais membros da equipe principal:
Comitê Científico
Professora Carolina Pescatori, Professeure Dominique Rouillard, Professora Luciana Saboia, Professor Guilherme Lassance, Professor Petra Kempf, Professor Sam Jacoby, Professeure Susanne Stacher

Produção editorial e gráfica
Cícero Portella – Editora Machado

Projeto gráfico
Bloco Gráfico

Assistente de Design
Lívia Takemura

Revisão versão inglês
Tracy Segal

Revisão versão português
Millena Machado e Bárbara Gontijo

Preparação do texto
Diana Szylit

Produção Gráfica
Lilia Góes

Apoios
Essa pesquisa contou com os seguintes apoios: Bolsa de Pós-Doutorado Nota 10 FAPERJ (2017-18, Processo E-26/202.358/2017); auxílio do Edital Universal CNPq (2018-21, Processo 420172/2018-1); bolsistas de Iniciação Científica CNPq (2019-20), FAPERJ (2018-19 E 2022-2025), Pibic UFRJ (2020-22) e Pibiac UFRJ (2022-23); Auxílio de Instalação Arc FAPERJ (2019, Processo E-26/010.002694/2019); Auxílio ALV UFRJ (2020); Urban Studies Foundation Fellowship na ENSA-Paris Malaquais, Paris (2021); Pesquisador Visitante Capes Print (Thiago Soveral, Prourb, 2021, Processo: 8887.573597/2020-00); Treinamento e Capacitação Técnica (Capes Print, Royal College Of Arts, Londres, 2021-22, Processo: 88887.571290/2020-00); Auxílio FAPERJ Jovem Cientista Do Estado (2023-25, Processo: E-26/200.185/2023).

A publicação deste livro foi parcialmente custeada pelo Auxílio FAPERJ Jovem Cientista do Estado (2023-25, Processo: E-26/200.185/2023).

Pesquisa
Urbanismo, Crítica e Arquitetura (UrCA), Programa de Pós-Graduação em Urbanismo (prourb), Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (fau-ufrj)
A040 Arquitetura e Cidade

Coordenação
Cauê Capillé e Thiago Soveral

Equipe de Iniciação Científica
Branca Leibovich (ic faperj), João Pedro Pina, Sophia Vollu, Giovana Paape, Luiza Apolinário, Rafael Pamplona, Larissa Monteiro (ic cnpq), Ariane Pereira da Silva, Mariana Cruz (ic cnpq), Roberto Costa, Arthur Frensch, Larissa Debossan (ic pibiac), Isabela Martins (ic pibic), Fernanda Bravo (ic faperj), Gabriela Lima (ic pibic), Bruno Paragó (ic pibiac), Lucas Marques (ic pibic e faperj), Bárbara Amorim (ic pibiac), Maria Morena Mosca (ic faperj), Letícia Araújo, Gabrielle Dytz (ic pibic), Henrique Manduca, Maria Eduarda Rolim e Caroline Silva (ic faperj).

Colaborações nos desenhos
Ariane Pereira da Silva, Arthur Frensch, Bárbara Amorim, Branca Leibovich, Bruno Paragó, Caroline Silva, Fernanda Bravo, Gabriela Lima, Gabrielle Dytz, Henrique Manduca, Isabela Martins, Larissa Debossan, Letícia Araújo, Lucas Marques, Maria Eduarda Rolim, Maria Morena Mosca, Mariana Cruz e Roberto da Costa Matta.
Além da equipe de ic, também contribuíram na produção dos desenhos os estudantes dos ateliês de pa3 e pacc até 2020, mencionados nas notas. In addition to the undergraduate research team, the students from the pa3 and pacc studios up to 2020, listed in the endnotes, also contributed to the production of the drawings.

Revisão final dos desenhos
Lucas Marques

Fotografias
Ariane Pereira, Bruno Paragó, Gabriela Lima, Isabela Martins, Lucas Marques e Mariana Cruz.

Equipe ou instituições indiretamente envolvidas:
Não informado pelo autor

Crédito das imagens:
Maria Chafir