O Armazém da Onça é uma pequena venda de produtos agroecológicos e artesanais localizada na entrada da cidade de Onça do Pitangui, em Minas Gerais. O projeto ocupa uma edificação do início do século XX, restaurada e ampliada para abrigar uma nova vida pública. Mais do que requalificar um imóvel ordinário, o gesto busca reativar o sentido coletivo da arquitetura: a possibilidade de que um edifício, por mais simples que seja, volte a pertencer à paisagem e à comunidade.
A intervenção se organiza em três movimentos complementares: restaurar, ampliar e reinterpretar.
O primeiro revela o edifício original, removendo camadas de reforma, forros e pinturas para expor sua materialidade autêntica: tijolos maciços, madeiramento e telhas coloniais. A restauração é conduzida como um ato de escuta, reconhecendo as imperfeições e os vestígios do tempo como portadores de valor. Nesse sentido, o projeto se aproxima da ideia de Pallasmaa de que a arquitetura se faz na continuidade tátil entre corpo e matéria, onde a experiência é mais importante do que a imagem.
O segundo movimento é o da ampliação. Uma nova construção em concreto armado, discreta e precisa dentro de suas condições locais, funciona como um pedestal para o edifício histórico. O novo corpo, que acolhe o pátio e os espaços de apoio no nível inferior, sustenta a edificação restaurada sem competir com ela. A operação instaura uma convivência entre tempos, um diálogo entre o peso da tradição e as possibilidades da técnica contemporânea. Essa precisão, contudo, não é a da indústria, mas a da mão do pedreiro local, dos limites de execução e das soluções inventadas no canteiro, o que confere ao conjunto um caráter humano e profundamente situado.
O terceiro movimento, o de reinterpretação, se manifesta no interior. O projeto assume a arquitetura como suporte para o cotidiano, onde o gesto de comprar, servir e conviver se torna experiência espacial. A marcenaria central organiza o espaço e integra funções, enquanto o ambiente combina referências afetivas e materiais contemporâneos. O uso de azulejos azuis, esquadrias intensamente coloridas e iluminação artesanal dialoga com a memória rural e a estética vernacular. Ao mesmo tempo, o desenho preciso dos móveis, o layout funcional e o uso de madeira maciça trabalhada por carpinteiros locais evocam um saber em vias de desaparecimento. O resultado é uma mistura entre presente e passado, onde a nostalgia não é negada, mas cultivada como parte viva da experiência.
Como observa Byung-Chul Han, a verdadeira forma contemporânea nasce da lentidão, da atenção e da permanência. O Armazém da Onça é um lugar de pausa, onde o tempo do fazer manual e do encontro cotidiano contrasta com a aceleração do mundo. Essa dimensão simbólica se articula à postura ética do projeto, próxima à defesa de Frampton por uma modernidade crítica, capaz de se enraizar no território sem abdicar do presente.
A arquitetura atua como mediação entre técnica, memória e paisagem. O uso do concreto, a recuperação artesanal das paredes e o restauro das tesouras de madeira constroem uma continuidade material entre o antigo e o novo. O subsolo abriga áreas administrativas e banheiros, enquanto o pátio amplia o espaço público.
Ao final, o projeto transforma um pequeno edifício restaurado em um lugar de convívio. O Armazém da Onça é menos um objeto e mais um exercício de reconciliação: entre tempos, escalas e modos de fazer. Uma arquitetura que reconhece, naquilo que é comum e imperfeito, a beleza do que permanece.

Armazém da Onça

🏆 Vencedor na Etapa Departamental do IAB/MG da Premiação Nacional do IAB 2025
🏅 Finalista da Etapa Nacional no Eixo I — Edificações

Cidade/UF: MG
Ano do projeto: 2022
Ano de conclusão da obra: 2024

Eixo / Categoria: Eixo I – Edificações /
Categoria 1.6 – Restauro e requalificação: Intervenções em pré-existências: Projetos de restauração, requalificação, reforma, ampliação ou renovação de edifícios existentes, desde que executados.
Modalidade: Projeto com obra executada

Proponente:
Estúdio Pedro Haruf
http://www.pedroharuf.com/

Autoria:
Pedro Haruf Vilarino Espíndola

Demais membros da equipe principal:
Sofia Vasconcelos, Aloísio Ventura e Tabata Zuba (Arquitetos Colaboradores)
Gustavo Nogueira (Estagiário de Arquitetura e Urbanismo)
Atilia Meireles (Design Gráfico e Sinalização)

Equipe ou instituições indiretamente envolvidas:
Armazem da Onça (Contratante)
Studio A Projetos e Restaurações (Consultoria de Restauro)

Crédito das imagens:
Manuel Sá