Inserida no sítio histórico do Bairro do Recife, próxima a importantes ruas e equipamentos — como a Rua do Bom Jesus, o Paço do Frevo, a Torre Malakoff e o Museu Cais do Sertão —, a PRAÇA ARTUR OSCAR, mais conhecida pelos recifenses como PRAÇA DO ARSENAL, remonta ao século XIX, quando ainda possuía um traçado tipicamente europeu. Em 1934, um projeto desenvolvido pelo paisagista Roberto Burle Marx muda completamente a sua feição, alinhando-a ao pensamento paisagístico moderno. Nas décadas seguintes, a praça foi descaracterizada por sucessivas intervenções, mas ainda assim foi incluída na lista dos 15 jardins históricos de Burle Marx em Recife (Decreto n°29.537/2016). Por entender a sua importância artística e cultural, a Prefeitura do Recife, em diálogo com o Laboratório da Paisagem da UFPE e outras instâncias ligadas à preservação do patrimônio, decidiu elaborar uma proposta de restauro que conciliasse a intenção original do paisagista com as demandas atuais da cidade e das pautas ambientais emergentes. A retomada do projeto também parte do reconhecimento do jardim como monumento vivo e renovável, conforme preconizam a Carta de Florença (1981) e a Carta Brasileira dos Jardins Históricos (2010).

A intervenção propôs a recuperação da integridade visual e da unidade paisagística do conjunto por meio da eliminação dos acréscimos que destoavam do projeto de Burle Marx — como canteiros elevados, gradis e uma fonte. Embora plantadas nos anos 1970, as palmeiras imperiais foram mantidas, pois são elementos naturais já consolidados no imaginário popular. Como as palmeiras estão em uma cota mais elevada em relação ao restante da praça, a solução adotada foi a criação de um talude ajardinado ao redor delas; a decisão de reduzir a extensa superfície pavimentada proposta por Burle Marx também buscou a amenidade climática, pauta primordial no pensamento paisagístico contemporâneo. A esplanada livre definida por placas de concreto e o canteiro circular central — elementos estruturadores do traçado original — foram retomados como base do desenho. Toda a nova arquitetura da praça é definida pela malha quadrangular do piso: da subtração de módulos, surgem os alegretes das árvores, enquanto o talude gramado emerge da diluição suave dos quadrados que o envolvem. No projeto de Burle Marx, as placas eram entremeadas por grama, no entanto, para garantir a acessibilidade universal sem perder a legibilidade do traçado, optou-se por preencher boa parte das juntas com granilite escuro. Sob as copas das árvores que contornam a praça — oitis-da-praia e castanholas, testemunhas vivas do projeto original —, foram dispostos bancos em concreto branco, atérmicos, de desenho contemporâneo, que reinterpretam o mobiliário da década de 1930 e restabelecem o caráter de convivência originalmente pensado para o espaço. A posição dos bancos também é definida pela malha quadrangular, em quadrados marcados pelo mesmo granilite das juntas.

A borda do canteiro circular, em granilite rústico e agora mais larga e ondulante para permitir que as pessoas caminhem, contemplem e sentem ao redor do jardim, evidencia a contemporaneidade da intervenção, ao passo em que reforça o caráter escultórico da vegetação — diálogo com o gesto plástico característico da obra de Burle Marx. Assim como na proposta original, o jardim é composto por espécies exóticas e nativas adaptadas à salinidade. O desenho orgânico de Burle Marx foi reconstituído, e a composição vegetal tomou como referência o vocabulário botânico empregado pelo paisagista.

A intervenção na Praça Artur Oscar equilibra passado e presente, revelando o jardim como espaço de arte, educação patrimonial e permanência. Mais do que um resgate formal, o restauro devolveu à praça sua vocação agregadora e a reinseriu na dinâmica festiva e cultural do Bairro do Recife. Por fim, o projeto reafirma o legado de Burle Marx e a importância da memória como instrumento ativo de conservação do patrimônio paisagístico moderno brasileiro.

PRAÇA ARTUR OSCAR

🏆 Vencedor na Etapa Departamental do IAB/PE da Premiação Nacional do IAB 2025
🏅 Finalista da Etapa Nacional no Eixo 3 – urbanismo, arquitetura da paisagem, planejamento e cidades

Cidade/UF: PE
Ano do projeto: 2024
Ano de conclusão da obra: 2025

Eixo / Categoria: Eixo 3 / Categoria única
Modalidade: Projeto com obra executada

Proponente:

Celso Vinícius Sales e Andrea Baran

Autoria:
Celso Vinícius Sales ; Andrea Baran

Demais membros da equipe principal:
Amy Pedrosa (Arquiteta Colaboradora e Gerente Geral de Arquitetura)
Rafaela Silva Lins (Arquiteta Colaboradora)
Oséias Liverson Santos (Arquiteto Colaborador)
Flora Fernandes (Arquiteta Colaboradora)
Cláudia Maciel (Arquiteta Colaboradora)
Ana Paula Lacerda (Arquiteta Colaboradora)
Aline Mota (Arquiteta Colaboradora)
Letícia Fraga (Arquiteta Colaboradora)
Lailah Bresani (Arquiteta Colaboradora)

Nayra Correia (Estudante e Estagiária de Arquitetura e Urbanismo)

Ana Terra Xavier (Arquiteta e Gerente Geral de Projetos)
Angelina Vasconcelos (Engenheira e Diretora Executiva de Projetos e Orçamentos)
Amanda Carvalho (Engenheira e Diretora de Manutenção Urbana)
Ivan Oliveira (Engenheiro e Gerente Geral de Praças)
Antônio Andrade (Engenheiro e Fiscal de Obra)
Patrícia Oliveira (Engenheira e Orçamentista)
Alisson Caetano (Engenheiro e Projetista de Drenagem)
Elizio Mello (Engenheiro e Projetista de Drenagem)

Equipe ou instituições indiretamente envolvidas:
RECENTRO (Coordenação)
Laboratório da Paisagem / UFPE (Consultoria de Projeto)
Metalco (Mobiliário)
FAR (Paisagismo)
Luciano Calixto (Granilites)
Andre Veloso (Sinalização)

Crédito das imagens:
Felipe Ribeiro
Ivison Gambarra
Rafaela Lins