A prática metodológica apresentada deriva da pesquisa de doutorado desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Bahia (PPGAU-UFBA), sob orientação da Prof.ª Dr.ª Thaís Portela. A investigação propõe um modo de fazer e pensar a cidade que integra corpo, afeto e território como campos indissociáveis de conhecimento. A pergunta que orienta o trabalho é: como as crianças sentipensam a cidade? — ou seja, como percebem, imaginam e atribuem sentidos ao espaço urbano a partir de suas experiências.
O conceito de sentipensar, inspirado na formulação de Orlando Fals Borda e Arturo Escobar, é compreendido aqui como uma prática de conhecimento que une razão e emoção, pensamento e corpo, mente e afeto. Sentipensar é um gesto epistêmico que desloca a separação entre sujeito e mundo, permitindo compreender a cidade não apenas como objeto de estudo, mas como campo de relações vivas que nos atravessam e transformam. Esse princípio ético e metodológico sustenta todo o percurso da pesquisa.
A prática metodológica tem início com um movimento de escuta e aproximação, nascido do desejo de compreender como as crianças percebem e habitam a cidade. Estruturada em torno das categorias corpo, cidade, tecnologia e futuro, a metodologia se desenvolveu em dois grandes momentos complementares. O primeiro, denominado Preparar o Corpo, tinha como objetivo conectar as crianças ao momento presente, favorecendo uma relação sensível com o próprio corpo, com o corpo do outro e com o espaço compartilhado. Nesse início, a pesquisadora se apresentava, explicando o propósito da investigação, suas etapas e objetivos, valorizando a presença de cuidadores e familiares como parte fundamental do processo. Essa fase foi marcada por práticas corporais.
O segundo momento, chamado Ampliar, dividia-se em duas etapas: Mergulhar e Confabular. Em Mergulhar, utilizava-se um grande mapa da cidade — quando disponível — para introduzir a ideia de que o espaço urbano está em constante transformação. As crianças eram convidadas a responder perguntas como: “O que você gosta, não gosta ou gostaria de conhecer na sua cidade?” e “Como você imagina que será a sua cidade em 2050?”. Já em Confabular, o grupo era instigado a projetar futuros possíveis a partir da pergunta: “Como você resolveria um problema do futuro e que objeto criaria para resolver esse problema?”, nessa fase, as crianças refletiam sobre possíveis problemas do futuro e eram convidadas a criar objetos não estruturados, para propor soluções imaginadas.
A prática se concretizou nas oficinas Brincar Parahyba, realizadas em João Pessoa (Brasil), e Jugar la Ciudad, desenvolvidas na Cidade do México (México). As oficinas funcionaram como dispositivos de escuta e experimentação coletiva, em que o corpo e a imaginação operavam como ferramentas de leitura urbAana. O corpo das crianças e o corpo da pesquisadora se tornaram lugares de passagem e tradução — ambos afetados pelo encontro.
Ao propor o corpo como ferramenta de investigação e a infância como lente epistemológica, esta prática desloca os modos tradicionais de produzir conhecimento em Arquitetura e Urbanismo. Mais do que levantar dados, busca tecer relações, reconhecendo o saber das crianças como potência crítica e poética de leitura do mundo.
O mérito desta prática metodológica está em construir um modo de pesquisa vivo, situado e relacional, que toma o ato de investigar como gesto de cuidado. O cartografar, aqui, é também escutar, mover-se e deixar-se tocar. Ao articular corpo, infância e cidade, o trabalho aponta caminhos para repensar o fazer arquitetônico e urbano, convidando-nos a habitar o mundo com atenção, delicadeza e responsabilidade — e a reconhecer, na voz e no olhar das crianças, uma possibilidade radical de imaginar outros futuros urbanos.
Prática metodológica em pesquisa com crianças e cidades
🏆 Vencedor na Etapa Departamental do IAB/PB da Premiação Nacional do IAB 2025
🏅 Finalista da Etapa Nacional no Eixo 5 – práticas pedagógicas
Cidade/UF: PB
Ano do projeto: 2023
Ano de conclusão da obra: 2024
Eixo / Categoria: Eixo 5 / Categoria única
Modalidade: Produção acadêmica, científica ou editorial
Proponente:
Alessandra Soares de Moura
Autoria:
Alessandra Soares de Moura
Demais membros da equipe principal:
Thaís de Bhanthumchinda Portela – Orientadora
Equipe ou instituições indiretamente envolvidas:
Universidade Federal da Bahia – UFBA (Instituição de pesquisa); Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia – FAPESB (Apoio a pesquisa científica);
Fundação Espaço Cultural – FUNESC (apoio)
Crédito das imagens:
Artur Maia
