RE-locus: caminhos e repertórios negros na cidade

RE-lugar

RE-locar

 1 | Pandemia, sobre o convite da curadoria e a montagem do seminário

Nesse momento de reclusão, de silêncio e distanciamento, realizar um evento como esse é encontrar-se em profunda colisão com os desafios pessoais, políticos e epistemológicos do período em que passamos.

O processo não é de síntese, mas de abertura, onde o maior princípio não é estancar no lugar do reconhecimento, nem o margeamento das vivências sobre a luz universalista, mas sim o desencadeamento das vivências, que se originam de lugares múltiplos e agora são visitadas por esse instituto.

2 | O tema do evento | por que esse nome?

“Re-locus: caminhos e repertórios negros na cidade” é uma proposta de leitura sobre o espaço, uma lente que permita imergir em territórios e trajetórias onde transcorrem epistemes, intelectos, profissionais e existências que as discussões do campo da arquitetura e urbanismo não permeiam com frequência.

São possibilidades latentes de aprendizado que partirão das vivências e projetos que compõem

não somente o técnico da cidade, mas a referenciam-se na prática de lugares e existências da população negra.

Estruturados em mesas temáticas, os espaços de debate são divididos em cinco encontros, pensados para conduzir a discussão com profissionais negros, arquitetos e principalmente não-arquitetos, que constroem territórios, arquiteturas e espacialidades na condição multiescalar e transdisciplinar do que é arquitetura e cidade.

3 | O tema do evento | explicação

Acredita-se que o maior desafio para os arquitetos e urbanistas é conduzir uma solução espacial que gere uma vida de qualidade, eficiente e aprazível para seus habitantes.

Porém, pensando nos enfrentamentos da vida contemporânea, nosso maior desafio não está em encontrar as soluções espaciais, e sim as problemáticas, os questionamentos e os paralelismo que definem a arquitetura, a cidade, o projeto e a essência do locus.

O locus, essência da cidade estruturada na pólis grega, elabora-se como referência de nossa comunidade arquitetônica, como símbolo para uma sociedade democrática em progresso. Seriam parte dos ciclos de um habitat ideal que unisse os elementos, material e imaterial, em um só, formando a cidade.

Observar as cidades que vivemos hoje e as que revivemos na história é perceber como o locus se representou como imagem. Para além de cidade ideal e democrática, o locus foi uma condição, um estado no corpo e no lugar, forma criada para dignificação da existência humana, primária e imaginada, uma utopia a ser materializada sobre a terra batida. Locus seria a cidade vista, o lugar-desejo, manifestada a partir dos anseios e das referências daqueles que a constroem.

Da cidade colonial à cidade contemporânea, a visão de Locus dissipou-se como referência não somente universal, mas universalizadora e totalizante. E atravessadas pelas consequências e estruturas da colonização e do racismo, as produções teórico-práticas operam nas dinâmicas sociais e territoriais.

Ambas operacionalizaram e evidenciaram nas cidades uma série de disparidades econômicas, sociais e raciais, que entrelaçaram arquitetura, espaço urbano e a história social no país.

O que se percebe é que esse lugar ideal, o locus, permanece sendo revisitado na construção de nossas cidades. E como toda estrutura construída na dualidade (campo/cidade, eu/outro, bom/mau, físico/não físico), onde há uma tese, existe uma antítese. Se o locus como referência comum e oficial, aplicada no imaginário das urbanidades, nos remete a imagens sobre corpos e espaços, o que seriam as outras formas de viver e construir cidades? Onde elas se encontram? E quem são os viventes desses anti-locus?

Entendemos que num processo desse espaço de discussão como esse, a dualidade não alcança o elo necessário para o debate de cidades não-ideais, pois sua própria dimensão conceitual dual limita-se à medida que se define. Um debate entre “cidade afirmada” x “cidade negada” também limita as múltiplas existências de vida que emergem e se desdobram no espaço, e conota as existências sob a perspectiva de coisificação e dominação.

Aqui, essas outras espacialidades não são anti-locus, nem cidades-negadas.

No projeto aqui presente, realocamos as discussões por essas visões múltiplas das arquiteturas e das territorialidades, as quais nomeamos aqui de re-locus. Pois re-lugar, re-locar, e re-transferir são ações verbais onde a discussão se faz necessária. Um deslocamento do verbo, que enxergue a presença dessas referências no espaço, nas criações e nas trajetórias.

São espaços de potência, de saber (intelecto), com suas próprias ferramentas de auto-organização, linguagens e códigos sociais. Territorialidades que se constituem coletivamente e se conectam numa temporalidade que se atravessa simultaneamente entre passado-presente-futuro. Onde o registro da história se encontra na fala, e sua consulta, no ouvir. Locais de constante fluxo, estão presentes na episteme da rua, do sagrado, do tempo não-linear, são espacialidades de resistências, onde a experiência de existir é política e cria cosmos, lugares.

As experiências, práticas e metodologias nesse evento são partilhadas com e para além de experiências urbanas que nos espelhamos. Se originaram num estado dinâmico do lugar, de lugares em movimento, do existir e do saber.

Que o ato de se deslocar obtém-se de um passo a outro passo.
E do ato repetido cria-se o movimento. O movimento cria dinâmica, e a dinâmica cria vida.

Um lugar que nomeamos como de movimento e de passagem.

Curadoria por Raquel Freire e Muha Bazila

Para assistir as mesas:

Arquitetura em Diáspora
A mesa Arquitetura em Diáspora contou com a presença da Professora Dra. Gabriela Leandro Pereira (Gaia), apresentando seu trabalho e o debate acerca da Diáspora e o olhar decolonial.  

 

Gabriela Leandro Pereira (Gaia): Professora e pesquisadora na Faculdade de Arquitetura da UFBA (Salvador-BA) e do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFBA. Possui formação em Arquitetura e Urbanismo (2006) pela UFES (Vitória-ES) e mestrado (2010) e doutorado (2015) pelo PPGPAU/FAUFBA (Salvador-BA), tendo realizado doutorado sanduíche (2012-2013) no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (Portugal) . É integrante do Grupo de Pesquisa Lugar Comum (PPGAU/FAUFBA) e coordenadora do Grupo de Estudos Corpo, Discurso e Território. Desenvolve pesquisas e investigações sobre narrativas, histórias, memórias e epistemologias produzidas sobre a cidade, urbanismo, arquitetura e seus apagamentos, interseccionados pelo debate das racialidades e de gênero. Em 2017 foi vencedora do Prêmio de Teses da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional e publicou em 2019 o livro “Corpo, discurso e território: Cidade em disputa nas dobras da narrativa de Carolina Maria de Jesus”, adaptação da tese. Foi curadora da Revista Arquitetas Negras, Vol 1 (2019); júri do concurso de curadoria da 12ª Bienal de Arquitetura de São Paulo de 2019 e integrou o corpo técnico de seleção do programa de fomento a projetos em resposta à emergência climática Urbe Urge (BDMG Cultura, 2021). Atualmente é editora convidada do Dossiê Temático “Território, Gênero e Interseccionalidades”, da Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais e compõe a Comissão Editorial da Edição Especial da Revista ABPN – Associação Brasileira de Pesquisadores Negros, da chamada “Racismo Ambiental e Re-existência de Territórios Negros em Todo o Mundo”. Co-fundadora e integrante da Coletiva Terra Preta e Conselheira da Casa Sueli Carneiro.


Design + Arquitetura

Criado pela escola de artes alemã mais famosa do século XX, o conceito do design tem como princípios um sistema de trabalho que vai desde a concepção até o produto, constituído pelo papel do artesão-técnico, criador e diretor de sua própria produção.
Assim, concebido na linha do tempo da humanidade, o design foi uma construção e advento da modernidade, onde os mais variados campos das artes, se alinham, como o design de moda, as artes plásticas, o design gráfico, a tipografia, inclusive a arquitetura, entre outras formas de design.
E intrínseca ao fundamento da linguagem e da estética, o design seria uma forma de apreensão e compreensão do mundo, sendo possível analisar que seu campo não se isenta de um sistema-mundo que hierarquiza, a partir de si (sua origem), outros códigos e linguagens apresentadas em diferentes culturas.
Olhando para os primórdios de sua criação, o repertório que construiu a ideia do design
postulou-se em repertórios de dominância ocidental, europeia e/ou branca, que sistematizou o que seria esteticamente belo, bom ou aceitável.
Por isso, deslocar o olhar comum pode vir a ser um processo investigativo, um exercício a pensar o design por novos meios de ver outros sujeitos, territórios e corpos, sendo o corpo a primeira escala de contato com o lugar e com o espaço, que registra e se torna registro ao mesmo tempo.
Encontrar produções que desafiem um sistema, dotado de chaves estéticas e epistêmicas comuns, podem ser a possibilidade de pensar em outros imaginários para os fundamentos do design e consequentemente, do criar.
Nesse cenário, o que as vivências, projetos e referências, destoantes do olhar comum e
hegemônico, podem contribuir para pensar o futuro do design (em contraponto à sua própria gênese)?

 

 

Nicholas Oher – OHMA
Sara Zwede – Studio Zwede (Harvard University)
Hisan Silva – CEO da Fashion Design Dendezeiro

Curadoria:

Raquel Freire:

Arquiteta pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (FAU – UnB), é pesquisadora, ativista, artista visual e musical. Atuou na área de assistência técnica pela CODHAB (Companhia de Desenvolvimento Habitacional do DF) e com arquitetura de interesse socio-sustentável pelo CASAS, Escritório Modelo de Arquitetura na Universidade de Brasília. Desde 2017 atua na área de pesquisa como coordenadora do Coletivo de Estudantes Negros Calunga (FAU- UnB), pesquisando as relações étnico-raciais no âmbito da arquitetura e urbanismo em Brasília (Distrito Federal). Colabora desde 2018 na Coletiva Arquitetas Invisíveis, um projeto de busca e reconhecimento da vida e obra de arquitetas na história da arquitetura, tratando dos debates interseccionais entre raça e gênero na profissão. Desde 2019 integra o grupo de pesquisa “Corpo, Discurso e Território” (FAU-UFBA), coordenado pela Prof. Drª. Gabriela Leandro Pereira (FAU-UFBA). Atualmente investiga os espaços coletivos afrorreferenciados na cidade de Ceilândia (Brasília – DF) e a estética da memória na construção de Brasília, debruçando-se sobre a dimensão sociorracial no surgimento da Brasília modernista.

Muha Bazila:

É baiana e cresceu entre Brasília, Salvador e São Paulo. Atualmente é mestrando em Harvard. Arquiteto e urbanismo pela Universidade de Brasília, onde se formou mestre em 2021. Para além da arquitetura, Muha é artista plástico e sua trajetória conta com participações em exposições nacionais e internacionais. Seu percurso acadêmico e artístico refletem seu ponto de vista onde a sua ralação com o mundo começa a partir da experiência de ser uma pessoa negra.

Este é um evento realizado através da Vice-Presidência de Ações Afirmativas