Sérgio Magalhães discute temas polêmicos em entrevista à revista aU | IAB Brasil

Sérgio Magalhães discute temas polêmicos em entrevista à revista aU

Data: 27/06/2014

Departamento: Nacional

O presidente do IAB, Sérgio Magalhães, foi o entrevistado da edição de junho da revista aU. Aos repórteres Diego Portas e Vítor Halfen, Magalhães defendeu a atualização da legislação urbana, que segue os preceitos de um mundo antigo. “Esse urbanismo produzido por índices, onde o interesse da propriedade privada define o volume que compõe o espaço público, é um retrocesso”, avaliou.

Segundo o arquiteto, há uma inércia entre o pensamento arquitetônico mais avançado e a conformação da cidade:

“Há um tempo que decorre entre ‘eu penso hoje isso’ e a transformação desse pensamento em prática coletiva. E quando se transforma em prática coletiva, meu pensamento já é outro. Se depender da dinâmica da cidade, estamos construindo segundo lógicas anteriores e, nessas lógicas anteriores que prevalecem hoje, os arquitetos defendiam edifícios isolados, as quatro fachadas mais a quinta da cobertura. Os arquitetos não defendiam o continuum construído, mas a sucessão de edifícios autônomos, especiais, todas obras-primas.”

Sérgio Magalhães também criticou o modelo de expansão horizontal das cidades brasileiras, ainda baseado no sistema rodoviarista. Ele ainda abordou o tema da gentrificação e das expulsões brancas junto a um cenário de degradação da vida urbana e da qualidade dos espaços públicos.

Leia a entrevista na íntegra:Sérgio Magalhães aborda assuntos polêmicos em entrevista.
 

Confira trecho da entrevista


aU: Vamos comparar a Olimpíada em Barcelona com a nossa experiência carioca: por que houve uma participação mais intensa dos arquitetos lá do que tivemos aqui?

Sérgio Magalhães: Com o fim da ditadura, a Catalunha resolveu se repensar, se reposicionar no contexto europeu e produziu um conjunto de ideias, grande parte delas de natureza urbanística, buscando as melhores expressões do pensamento catalão, especialmente vindas de arquitetos. Nesse processo de recuperação urbanística, a Olimpíada é apresentada e é vitoriosa. E é aproveitada dentro de um esforço que já tinha início alguns anos antes e reforça a ideia de recuperação da cidade. No Rio de Janeiro a Olimpíada é a oportunidade de a cidade se refazer, mas isso se dá sem uma ideia ou um debate anterior, sem elaboração. O que resultou desse esforço foi recapturar o que tinha sido pensado 40, 50 anos antes. Essa é a grande diferença: o Rio de Janeiro faz o esforço olímpico sobre uma base que teórica e doutrinariamente já estava superada há 50 anos, e Barcelona faz o esforço olímpico dentro de uma base renovada e propunha o futuro. Esta, para mim, é a grande diferença.

aU: Dos poucos concursos recentes, dois foram de escala grandiosa, como o Parque Olímpico e o Porto Olímpico. Isso não nos fez perder a oportunidade de um grande debate urbano e arquitetônico? Por que não há mais concursos de menor porte, gerando uma condição de distribuição das oportunidades para um debate mais democrático?

SM: Nunca houve um período tão fértil em concursos quanto este. Houve o concurso do Parque Olímpico, que é importante, o concurso do Porto Olímpico, o do golfe e mais dois ou três. Sob este ponto de vista, os arquitetos ajudaram a produzir um ideário renovado. No caso do Porto Olímpico, penso que os quatro primeiros classificados apresentaram um modelo de ocupação urbana central densa, que é o mais avançado em termos contemporâneos e se contrapõe ao desenho do Porto Maravilha como um todo, que é um desenho ultrapassado do ponto de vista urbanístico e arquitetônico, baseado no lote, enquanto o Porto Olímpico foi baseado no conjunto. Eu lastimo que o Porto Olímpico não tenha sido implantado integralmente, porque são 17 hectares e demonstraria as virtudes do modelo contemporâneo da arquitetura em que há um misto de funções, há diferença de escalas, sucessão de espaços públicos e privados interconectados em que se valoriza o espaço público. Qualquer um dos primeiros colocados apresentou essa qualidade. O debate possível não se estabeleceu porque a resposta foi calcada no interesse imobiliário da venda dos Cepacs, o que vai em acordo com o modelo que vigora no Brasil hoje, de definição privada da forma urbana. A forma urbana está sendo concebida pelo interesse privado, não é o interesse público, o interesse coletivo que tem determinado a forma urbana. As legislações de todas as cidades, praticamente, são calcadas no lote. Se tenho um lote de 10 m x 30 m, construo dois, dez ou 20 m de altura. Se tenho o dobro do lote, construo algo diferente. Esse urbanismo produzido por índices, onde o interesse da propriedade privada define o volume que compõe o espaço público é um retrocesso. O Rio de Janeiro é, das cidades brasileiras, talvez a que tenha a experiência mais rica na conformação do espaço público a partir do interesse coletivo. Mas com a mudança de modelos e a hegemonia da arquitetura segundo São Paulo, digamos - não a São Paulo das estruturas, mas São Paulo cidade - é definida pelo edifício isolado, que é definido pelos afastamentos, pelos índices, pelo interesse fundiário. O Porto Olímpico, se pudesse ter sido construído tal como foi definido no concurso, poderia ter demonstrado a qualidade superior da arquitetura contemporânea no enfrentamento dessa relação público-privado.

aU: O urbanismo de índices, que gera ordenamentos jurídicos e econômicos, como o modelo do Porto Maravilha, é produzido também pelos arquitetos ou pela falta de inserção nesse debate?

SM: Os arquitetos são cada vez mais pessoas comuns, normais. Eu tinha um professor, Carlos Fayet, que defendia: vai ser bom quando os arquitetos forem pessoas normais, não forem gênios, sábios, pessoas inalcançáveis como achávamos que éramos e continuamos achando que somos. Os arquitetos são normais, fazem parte do corpo social e influenciam. A arquitetura que se produz, ou que não se produz tem uma influência importante nossa. Mas há uma inércia entre o pensamento arquitetônico mais avançado e a conformação da cidade. Há um tempo que decorre entre "eu penso hoje isso" e a transformação desse pensamento em prática coletiva. E quando se transforma em prática coletiva, meu pensamento já é outro. Se depender da dinâmica da cidade, estamos construindo segundo lógicas anteriores e, nessas lógicas anteriores que prevalecem hoje, os arquitetos defendiam edifícios isolados, as quatro fachadas mais a quinta da cobertura. Os arquitetos não defendiam o continuum construído, mas a sucessão de edifícios autônomos, especiais, todos obras-primas. Nós conformamos a cidade por uma multiplicidade de obras excepcionais. Nunca quisemos fazer obras comuns. O que a cidade apresenta pra nós hoje, de certo modo, corresponde a essa nossa idealização. Mas essa idealização ficou corrompida desde os anos de 1960/70 e continuamos ainda trilhando esse caminho. O mundo já mudou, mas a legislação urbana não, e muitos continuamos com a ideia de que temos que construir, cada um de nós, só obras-primas.

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