Um olhar crítico sobre as obras do Rio

Autor: Luiz Fernando Janot

Data: 14/03/2016
Os viadutos, as muretas e outras interferências grotescas que se espalham pelos trajetos do BRT constituem verdadeiras cicatrizes no tecido urbano

Faz muito tempo que não se via um repertório tão amplo de obras acontecendo simultaneamente na cidade do Rio de Janeiro. Há que se reconhecer a determinação da prefeitura em enfrentar com obstinação os inúmeros desafios que se apresentaram durante esse período de preparação da cidade para receber as Olimpíadas de 2016. Todavia, não dá para ficar indiferente diante da qualidade discutível de alguns projetos e obras que estão sendo realizadas.

Acredito que boa parte dos equívocos cometidos se deve ao fato de o poder público ter aberto mão da sua prerrogativa de incorporar aos quadros técnicos uma estrutura permanente de planejamento urbano e coordenação de projetos. A prática recorrente de delegar para as empreiteiras encarregadas da execução das obras a responsabilidade pelo desenvolvimento dos projetos de arquitetura e de urbanismo consolidou na administração pública uma cultura imediatista difícil de ser alterada.

Abstraindo os diversos projetos bem-sucedidos — a demolição da Perimetral, a urbanização da Praça Mauá, o MAR, o Museu do Amanhã, as Naves do Conhecimento, os parques de Madureira e Deodoro, entre outros — nota-se que algumas realizações deixaram a desejar. O BRT, por exemplo, é uma obra que apresenta vários equívocos de projeto. Os viadutos, as muretas e outras interferências grotescas que se espalham por seus trajetos constituem verdadeiras cicatrizes no tecido urbano. Por sua vez, a pavimentação das pistas de rolamento já se encontra em estado deplorável de conservação, apesar do pouco tempo de uso. Esses são fatos que demonstram erros grosseiros de projeto e de especificações.

Outro projeto de qualidade discutível é aquela ponte de cabos de aço construída sobre o Canal da Joatinga para acesso do metrô à Barra da Tijuca. Trata-se de uma fanfarra estética que compromete de forma irreversível a bela paisagem local. São obras espetaculosas que, como tantas outras semelhantes, aparecem bem em filmes publicitários, mas deixam a desejar quando se tornam realidade.

Mais uma obra que merecia tratamento especial é a ciclovia da Avenida Niemeyer e a sua extensão pelo Elevado do Joá. Da maneira como ela foi implantada, acabou com a bela visão do mar para quem circula de automóvel por aquele trecho. Ao que parece, também não foi previsto o conflito entre bicicletas e pedestres que circulam ao mesmo tempo naquele espaço de dimensões reduzidas. A falta de percepção desses e de outros pormenores específicos indica que se trata de um projeto concebido de maneira açodada.

O mesmo se pode dizer do novo traçado da Avenida Rio Branco para receber o VLT. Pelo resultado aferido, tudo indica que na definição do projeto e das suas especificações prevaleceram os interesses da empresa concessionária. Quanto ao fechamento de um trecho dessa avenida para transformá-lo em área exclusiva para pedestres, não encontramos nenhuma justificativa de ordem funcional.

Não custa lembrar que essa área — delimitada pelo Museu Nacional de Belas Artes, pela Biblioteca Nacional e pelo Theatro Municipal — não possui no seu entorno nenhuma loja, bar, restaurante ou outro atrativo que assegure a permanência de pessoas no local. Certamente, a tendência será a transformação futura da área em um local inóspito e perigoso, especialmente à noite. Será que nada disso foi levado em consideração?

Em suma, quando a complexidade dos projetos urbanos extrapola a capacidade da população de compreendê-los tecnicamente, só lhes resta aceitá-los como se fossem verdades insofismáveis. Para corrigir essa deformação, é indispensável que o poder público — além de restabelecer os seus órgãos de planejamento urbano e coordenação de projetos — interaja com as entidades profissionais e de representação da sociedade para avaliarem, conjuntamente, as propostas e projetos idealizados de forma a torna-los mais transparentes e compreensíveis antes de serem executados. Dessa forma, alguns problemas semelhantes aos que foram citados poderão ser evitados antecipadamente.

Em tempo: por ser um patrimônio cultural do Rio, qualquer projeto de reforma ou transformação do prédio da Cobal de Botafogo deverá ser, obrigatoriamente, objeto de um concurso público de arquitetura e, de preferência, sob a chancela do Instituto de Arquitetos do Brasil.

Autor: Luiz Fernando Janot

Mini currículo: Arquiteto e Urbanista