Consumidores e excluídos

Autor: Roberto Ghione

Data: 14/03/2016
​Urbanidade e civilidade são condições essenciais da vida nas cidades. Urbanidade se refere às características do espaço construído que possibilitam o desenvolvimento social e cultural, enquanto civilidade constitui o sistema de relações humanas que determina o senso de cidadania e os comportamentos das pessoas. O urbanismo promove (ou deveria promover) os valores transcendentes da urbanidade e da civilidade como instrumentos do desenvolvimento das cidades e, por decorrência, do país.
 
Na realidade brasileira esses valores encontram-se subordinados à mercantilização exagerada dos processos de ocupação do território e de urbanização das cidades, que viraram palco de negócios. Nessa circunstância, o conceito de cidadão é substituído pelo de consumidor, provocando transformações substanciais nas relações entre as pessoas e a cidade.
 
A procura do bem comum e as atitudes solidárias, próprias do espírito cidadão, viram egoísmo, narcisismo, arrogância e hedonismo quando os valores comerciais substituem os humanitários, estimulando o confronto de classes e a desintegração social. A cidade formal é a de quem pode pagar por ela. O resto é exclusão: quem não pode pagar os altos valores do mercado imobiliário para consumir os produtos da grife de tal ou qual construtora, ou morar em determinado condomínio fechado, vira cidadão de segunda, submetido às condições degradantes de urbanidade e sérios riscos de saúde e segurança.
 
Nesse contexto o poder público, que deveria zelar pelo bem estar geral, não apenas negligencia a prática do urbanismo como instrumento de justiça e integração social, como estimula a produção da arquitetura de consumo. O conluio entre interesses públicos e privados se manifesta cruamente na realidade excludente e desintegrada das cidades, sem perceber que tal desintegração afeta não apenas os excluídos, mas toda a sociedade. Dentre os múltiplos problemas existentes, a atual epidemia de zika vírus delata mundialmente a negligência pública e a submissão aos interesses privados nos processos de urbanização no Brasil.
 
Consumidores e excluídos são, em geral, os componentes da sociedade brasileira contemporânea, cujas atitudes e comportamentos se manifestam na configuração da cidade. As características da Casa Grande e Senzala se reproduzem nas cidades formal e informal, persistindo a desigualdade e os sintomas mais execráveis da tradição cultural brasileira.
 
Desintegração social e violência são os reflexos da situação nos comportamentos das pessoas, já não mais cidadãos, mas consumidores ou excluídos de um sistema afastado dos valores da urbanidade e da civilidade, manifestação crua do estado de subdesenvolvimento do país.
 
Não existe futuro promissor em sociedades conformadas por consumidores e excluídos, nem em cidades configuradas por arquiteturas desumanas e favelas degradadas. Urge debater e refletir acerca das necessidades concretas das cidades, considerar e avaliar a importância do urbanismo como contribuição para a redenção social e estimular a consciência cidadã na procura solidária do bem estar geral. O desafio está posto e o urbanismo tem muito para aportar.

Autor: Roberto Ghione

Mini currículo: Arquiteto, formado pela Universidad Nacional de Córdoba, Argentina, especializado em Historia e Crítica da Arquitetura, Preservação do Patrimônio e Planejamento Urbano.