Por Pedro Rossi e Raquel Freire (Instituto de Arquitetos do Brasil)

* Pedro Rossi é Diretor Cultural do IAB e ex-presidente do IAB/PB

** Raquel Freire é Vice-Presidente Extraordinária de Ações Afirmativas do IAB

Após um hiato de dez anos, a Conferência Nacional de Cultura (CNC) retomou suas atividades em 2024, trazendo o tema “Democracia e Direito à Cultura” em sua quarta edição. O evento contou com a participação de mais de 3 mil representantes de diversas regiões do Brasil, visando discutir políticas públicas culturais e estabelecer diretrizes prioritárias para o setor. As propostas aprovadas durante a conferência serão fundamentais para a elaboração do novo Plano Nacional de Cultura (PNC), que guiará as políticas culturais do país nos próximos anos.

A arquitetura, como segmento cultural, possui uma especificidade em relação a outras expressões artísticas, transcendendo o interesse apenas dos arquitetos e urbanistas para tornar-se relevante para toda a sociedade. Durante a 2ª CNC, realizada em março de 2010, a arquitetura foi oficialmente reconhecida pelo Ministério da Cultura como parte integrante da identidade brasileira. No entanto, poucas ações concretas foram implementadas nesse sentido.

No contexto da CNC, o Encontro Nacional da Setorial de Arquitetura e Urbanismo abordou três eixos principais: a arquitetura e urbanismo como expressão simbólica, como cidadania e direito à cidade, e como promotor do desenvolvimento econômico, criativo e sustentável. O Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), presente na Conferência, elaborou e protocolou um documento defendendo a necessidade de reafirmar a arquitetura e o urbanismo como elementos essenciais da cultura brasileira, destacando sua importância como parte integrante da identidade nacional.

Dentre as propostas apresentadas pelo IAB para o Plano Nacional de Cultura, destaca-se a criação de uma linha de fomento específica para exposições, publicações, encontros e premiações de arquitetura e urbanismo, visando democratizar os recursos investidos na cultura. Adicionalmente, sugere-se a inclusão de diretrizes voltadas à preservação de acervos arquitetônicos e urbanísticos, a instauração de um museu de referência nacional para a preservação, divulgação e fomento da arquitetura e urbanismo no Brasil, e a descentralização de pontos de cultura e espaços de exposição por todo o país.

Ao lado de Cecília Sá,  Subsecretaria de Espaços e Equipamentos Culturais do Ministério da Cultura; Davi Kopenawa, líder político yanomami; e Nabil Bonduki, professor da FAUUSP, uma das falas da abertura da setorial de Arquitetura e Urbanismo da 4ª CNC foi conduzida pela arquiteta e urbanista Gabriela de Matos. Com uma trajetória de destaque, Gabriela já ocupou o cargo de vice-presidente e atualmente é conselheira superior do IAB/SP. Em 2020, foi premiada como “Arquiteta do Ano” pelo IAB/RJ, em reconhecimento à sua notável atuação e contribuição para o campo da arquitetura. Mais recentemente, recebeu o Leão de Ouro de Melhor Participação Nacional em 2023, na 18ª Bienal de Arquitetura de Veneza, pelo Pavilhão do Brasil, uma obra em colaboração curatorial com o arquiteto Paulo Tavares.

Como marco da relevância do mês de março e do Dia Internacional de Luta das Mulheres, o IAB apresenta uma entrevista especial realizada com a arquiteta e urbanista Gabriela de Matos. Promovida em colaboração entre a Diretoria Cultural e a Vice-Presidência Extraordinária de Ações Afirmativas da Direção Nacional do IAB, essa iniciativa busca reafirmar e promover a arquitetura como manifestação cultural, especialmente aquela que desafia a produção hegemônica, buscando valorizar um trabalho fundamentado em saberes populares e ancestrais.

Ao longo da entrevista, ao compartilhar suas experiências e reflexões, Gabriela discute como sua inspiração pessoal e suas experiências moldaram sua visão da arquitetura e urbanismo, enfatizando seu compromisso em promover uma abordagem mais inclusiva e sensível às questões sociais e culturais do Brasil.

Um dos pontos altos da conversa é a investigação e o percurso do trabalho de Gabriela pela promoção da arquitetura afro-brasileira, assim como seu envolvimento na abordagem de temas complexos como as mudanças climáticas e as desigualdades sociais. Além disso, a entrevista oferece uma visão interna do processo curatorial por trás da exposição “Terra” no Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza, destacando os desafios enfrentados e o impacto cultural e político dessa mostra.

Por meio dessa entrevista, o IAB reafirma seu compromisso com a diversidade, inclusão e sensibilidade às questões sociais, culturais e políticas no campo da arquitetura e urbanismo. É uma oportunidade para refletir sobre a interseção entre cultura, arquitetura e política, e para reconhecer o trabalho das mulheres na construção de um ambiente urbano mais justo e equitativo no Brasil.

Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB): Como foi o processo desde o convite até a concepção da proposta curatorial para o Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza, considerando o início da colaboração entre você e Paulo Tavares?

Gabriela de Matos: Vou começar desde o início da pesquisa e talvez até mesmo desde o convite. É importante abordar esse ponto, de como o Paulo Tavares e eu chegamos a essa situação. Recebemos um e-mail da Fundação Bienal de São Paulo nos convidando a apresentar uma proposta curatorial para uma seleção. O e-mail nos pegou de surpresa, pois foi endereçado a nós dois e não nos conhecíamos, nunca havíamos trabalhado juntos. Foi uma sugestão da parte da Bienal que essa proposta do pavilhão viesse de nós dois. Tínhamos cerca de três semanas para criar essa proposta. Começamos uma série de conversas muito intensas. Primeiramente, porque não nos conhecíamos, então era necessário nos familiarizarmos um com o trabalho do outro. Tentamos encontrar uma convergência entre nossas pesquisas, ou até mesmo criar uma terceira abordagem, o que era uma tarefa desafiadora para ser feita em tão pouco tempo. No entanto, estávamos determinados, pois consideramos essa uma oportunidade única para levar nossa contribuição e nosso ponto de vista para aquele contexto.

Então, elaboramos esse documento, passando por uma revisão do que eu vinha fazendo nos últimos anos e, posteriormente, uma revisão do trabalho do Paulo Tavares. De forma resumida, estávamos os dois envolvidos com as mesmas questões. Embora o Paulo Tavares não trabalhe necessariamente com arquitetura indígena, entendo que ele a aborda como uma forma de reconhecimento dessas arquiteturas dentro do nosso campo, mesmo que elas não sejam reconhecidas como tal.

A própria questão da natureza, que ele chama de “landscape design“, e eu trabalhando com essa contribuição afro-brasileira na arquitetura. Então, chegamos a esse tema, que é a “Terra”, que entendemos que, apesar de serem diferentes, as abordagens se relacionavam, pois ambas lidavam com a terra, com o território, de formas semelhantes ou de maneiras que consideramos interessantes de serem exploradas. Decidimos chamar o projeto de “Terra” e começamos o processo de curadoria. 

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IAB: Como foi o processo de curadoria e produção da exposição “Terra”? Quais foram os desafios enfrentados, especialmente em relação ao cronograma de produção e ao orçamento?

Gabriela de Matos: Inicialmente, escrevemos um extenso texto sobre nossa pesquisa. Em seguida, passamos pelo processo de curadoria, pensando em quem seriam as pessoas que nos ajudariam a dar forma a essa exposição. Consideramos que, se estamos lidando com produções de comunidades que não são formalmente reconhecidas como artistas, como no caso das tecelãs do Alaká [Ilê Axé Opô Afonjá] e da comunidade do Alto do Rio Negro [Amazônia], entre outras, o único artista profissional que convidamos foi o Ayrson Heráclito. Portanto, trata-se de uma exposição que reflete o cotidiano das pessoas, suas vidas e como se relacionam em comunidade, assim como sua relação com o território. Nosso trabalho ali foi, de certa forma, capturar momentos dessas experiências para que pudessem ser apresentadas na exposição.

Também enfrentamos várias questões complexas relacionadas ao cronograma de produção. Depois de sermos selecionados, tivemos aproximadamente quatro meses para produzir tudo. Além disso, havia a questão da distância. Produzir algo para um lugar onde, no meu caso, nunca havia estado antes, levanta muitas incertezas e desafios. Outro desafio foi o orçamento limitado para levar materiais do Brasil para lá. Essa questão surgiu mais para o final do nosso trabalho. Inicialmente, selecionamos, por exemplo, a coleção Nosso Sagrado para ser apresentada no núcleo da exposição, onde contamos sobre o Cais do Valongo e a Pequena África. No entanto, no final das contas, não conseguimos levar. Optamos por outras alternativas que também não funcionaram como esperávamos.

A única coisa que conseguimos levar foram os tecidos das tecelãs do Alaká [Ilê Axé Opô Afonjá]. O restante da exposição foi produzido lá em Veneza. Tivemos todas essas questões para lidar. Além da curadoria e das tentativas de levar outras peças, também houve a produção de dois filmes comissionados para a exposição. Um deles foi dirigido por Day Rodrigues, intitulado “O Corpo da Terra”, filmado em Salvador, no Terreiro da Casa Branca do Engenho Velho [Ilê Axé Iyá Nassô Oká]. Como eu já tinha uma relação de pesquisa com elas, fizemos o convite para participarem da bienal conosco, e elas aceitaram.

Todo mundo abriu as portas do terreiro, e nós também quisemos abordar as questões do terreiro juntamente com o tema “Terra”. Isso inclui o fato de estarem constantemente sofrendo com invasões em seu território, tanto por vizinhos quanto por outros fatores externos. Apesar de ser o primeiro terreiro tombado do Brasil e o primeiro monumento negro tombado, ainda é tratado de forma muito violenta. Decidimos destacar essas questões na exposição, o que acabou tendo um desdobramento positivo para elas e para a luta que estavam travando.

O outro filme foi produzido por Juliana Vicente em Brasília, com o quilombo Kalunga e o quilombo Mesquita. Juliana foi para Brasília, gravou com eles e o resultado foi um filme incrível. Eu e o Paulo participamos da elaboração dos dois roteiros, pois tínhamos muito pouco tempo para que as pessoas entendessem nossa pesquisa e ainda conseguíssemos produzir os filmes. Portanto, estivemos ativamente envolvidos na criação [dos roteiros], já que estavam alinhados com nossas pesquisas, tanto as minhas em Salvador quanto as dele em Brasília.

Então, Juliana foi e criou uma narrativa impecável sobre a história de Brasília, destacando a presença indígena e negra na cidade e culminando no estabelecimento do novo Ministério dos Povos Originários, com a presença de duas ministras negras e um ministro negro no novo governo federal. Ela desenvolveu uma linha narrativa incrível. Quando exibimos o filme em Veneza, as pessoas ficaram chocadas, pois, apesar de ter apenas aproximadamente 15 minutos de duração, proporcionava um panorama muito importante do Brasil. O restante da exposição consistia em documentos, mapas, fotos e vídeos fornecidos pelas aldeias, que gentilmente cederam para nós. Estes filmes foram os únicos comissionados para o projeto.

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IAB: Você mencionou que a experiência com Paulo Tavares foi incrível e que provavelmente haverá futuras colaborações. Como você descreveria a importância dessa parceria e como ela contribuiu para o sucesso da exposição “Terra” no Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza? Além disso, você discutiu os desafios enfrentados durante todo o processo, desde a apresentação da proposta até a produção da exposição. Como você acha que esses desafios influenciaram o resultado final e a percepção do público sobre o pavilhão? Por fim, como você analisa o impacto cultural e político do pavilhão, considerando especialmente o contexto social e político do Brasil na época da produção?

Gabriela de Matos: A experiência comigo e com Paulo Tavares foi incrível, pessoalmente. Ele terá a oportunidade de compartilhar seu ponto de vista, mas, falando por mim, ficamos extremamente satisfeitos com essa parceria. Provavelmente faremos muitas outras colaborações no futuro. Acredito que a Bienal acertou em juntar nós dois nesse projeto.

A experiência com todo o processo foi extremamente complexa. Primeiramente, estávamos lutando para apresentar uma pesquisa e garantir que as pessoas entendessem a importância do que estávamos expondo. Isso envolvia uma relevância histórica, política, estética e conceitual em várias dimensões.

Quando se trata da Bienal de Veneza, há uma glamourização associada à aura do território europeu. No entanto, existe uma noção da importância dos debates que surgem com os trabalhos apresentados lá. Não sei se todos têm essa compreensão da magnitude desses debates, ou se a maioria das pessoas fica muito focada na glamourização do evento e não presta muita atenção nisso. Essa ênfase na glamourização pode ser frustrante, especialmente quando você está apresentando uma contribuição séria, fundamentada em questões profundas, e não nessa superficialidade. As pessoas têm dificuldade em entender, o que faz você sentir como se estivesse constantemente em um embate para provar a importância do que está sendo discutido. O modo como as coisas são conduzidas precisa seguir um determinado padrão, não há margem para mudanças.

Tivemos nossas próprias questões. Por exemplo, posso falar sobre as minhas, mas não posso falar pelas questões do Paulo, embora ele também tenha enfrentado desafios. Em determinado momento, nos separamos: eu fui para Salvador, ele foi para a Amazônia. Era necessário para que as coisas acontecessem da forma que queríamos.

Queríamos convidar as pessoas e olhá-las nos olhos. Queríamos apresentar nosso trabalho para que elas entendessem e estivessem lá não apenas por ser a Bienal de Veneza, mas porque acreditavam no projeto como um todo e na sua importância política. Foi assim que conduzimos tudo, e acredito que o motivo de termos agido dessa maneira foi o que nos levou ao resultado, que foi o Leão de Ouro. Celebramos com essas pessoas, fazendo-as se sentirem parte integrante e vencedoras desse prêmio também. Não queríamos que sentissem que seu conhecimento ou suas vidas foram apenas extraídos e mostrados em outro país, na Europa.

Então, queríamos que todos estivessem juntos conosco. Estávamos apresentando isso de forma coletiva, e tivemos vários embates para conduzir as coisas dessa maneira. Normalmente, as coisas são resolvidas por e-mail. Houve um vídeo que, se não me engano, precisava de 30 assinaturas, pois foi feito em uma aldeia, e todos os envolvidos precisavam assinar como autores, o que foi uma dificuldade enorme de entender. Lidamos com questões muito relacionadas à produção, mas não apenas isso. A burocracia vem de uma lógica que, como sabemos, tende a ser preconceituosa, colonizadora e extrativista. Tivemos muitos embates, o que foi bastante cansativo, mas, no final das contas, ficamos muito felizes com o resultado da exposição, antes mesmo do Leão de Ouro. Ficamos muito felizes com a presença da ministra da cultura Margareth Menezes. Afinal, era um pavilhão majoritariamente feito por mulheres negras: curadores, artesãs, o estagiário que era um homem negro, mas o restante eram todas mulheres, inclusive as duas cineastas, predominantemente mulheres negras.

Muito desse conteúdo, boa parte, também tratava de mulheres negras. Incluindo todas as mulheres do terreiro da Casa Branca. Então, achamos que algumas instâncias deveriam ter participado mais ativamente do processo como um todo. Porque estava envolvendo tudo isso, mas ao mesmo tempo, o fato da ministra Margareth ter comparecido coroou a coisa de uma forma perfeita, primeiro porque ela é incrível. Ela tem uma energia incrível. Ela fez uma abertura incrível do pavilhão com um discurso muito bom. Quando fizemos o projeto, foi antes da eleição do atual governo, então fizemos num contexto do período de [Jair] Bolsonaro. Escrevemos e reescrevemos esse projeto, sabendo que ele passaria pela Secretaria Especial de Cultura.

E não temos conhecimento exato de como foi recebido, possivelmente devido à falta de leitura por parte das pessoas. No entanto, foi recebido e tivemos que ter muito cuidado com as palavras, especialmente porque o documento mencionava questões relacionadas a quilombolas, negros e indígenas – e isso, em um governo como o anterior, era quase que um pedido de reprovação da proposta. Essa situação nos surpreendeu positivamente. A retomada do Ministério da Cultura, logo quando começamos a produzir, ocorreu em janeiro do ano passado, em 2023, e posteriormente a abertura feita pela ministra Margareth. Foi uma experiência maravilhosa. Além disso, foi incrível observar a reação do público. Foi realmente gratificante. Após vermos tudo isso, concluímos que todo o esforço empregado no processo para trazer essa exposição da forma como foi, valeu a pena. Portanto, construir o pavilhão de terra, com o aroma característico, que foi amplamente mencionado em várias mídias estrangeiras, especialmente por aqueles que estiveram presentes desde o início até a abertura, foi uma escolha acertada.

O pavilhão estava constantemente lotado, e as pessoas frequentemente paravam para conversar conosco em Veneza, elogiando o trabalho. Isso nos enche de orgulho, pois tivemos um pavilhão em um local que quase nenhum representante da América do Sul teve. Além disso, nosso pavilhão era bonito e bem localizado geograficamente ali dentro. As pessoas demonstravam curiosidade em relação ao que o Brasil trouxera. Foi gratificante perceber que as pessoas conseguiram se conectar, mesmo com a proposta curatorial profundamente enraizada em nossa terra, no Brasil. Elas conseguiram captar a ideia, o que foi muito positivo. Dias depois, ocorreu a premiação do Leão de Ouro, e ficamos extremamente surpresos e felizes com isso. Foi emocionante ver como as pessoas vibraram quando recebemos o prêmio.

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IAB: Você descreveu sua experiência após o recebimento do prêmio Leão de Ouro, mencionando como isso impactou seus planos e perspectivas futuras. Como você avalia essa mudança de cenário em sua trajetória pessoal e profissional após o reconhecimento internacional na Bienal de Veneza? Além disso, você destacou a importância de viajar para outros países para dar palestras e participar de eventos após o prêmio. Como você percebe que esse reconhecimento tem influenciado sua carreira e suas oportunidades de engajamento com questões relacionadas à arquitetura e cultura?

Gabriela de Matos: O pós-prêmio foi interessante. Houve toda aquela euforia em torno do prêmio, toda aquela movimentação. Poucos dias depois, fomos embora, pois passamos a maior parte do tempo em Veneza acompanhando a obra. Ficamos lá por doze dias. O Paulo Tavares permaneceu um pouco mais do que eu. Se não me engano, no décimo ou nono dia, recebemos o prêmio. Logo após isso, parti. Depois que deixei Veneza, tinha alguns outros eventos em outros países já agendados antes da premiação, o que foi bastante interessante, pois me proporcionou um contexto da importância do prêmio. Era algo que não imaginava. Ouvíamos falar apenas de longe sobre o Leão de Ouro e afins, algo um tanto distante e que não estava exatamente dentro do meu horizonte.

Eu sempre desejei realizar um mestrado. Finalmente, consegui concretizar esse objetivo e agora estou ansiosa para seguir adiante com um doutorado. Também tinha o sonho de ter meu próprio escritório, e agora esse sonho se tornou realidade. Em resumo, essas eram minhas aspirações. No entanto, ganhar o Leão de Ouro não estava nos meus planos. Durante a cerimônia, lembro-me de dizer para o Paulo: “Acredito que temos chances de ganhar isso.” Mas ele não compartilhava da mesma perspectiva. “Gabi, sem chance, sem chance” foi o que Paulo me respondeu durante a premiação. Estávamos completamente desacreditados. Entretanto, ao participar de outros eventos subsequentes, comecei a compreender melhor a importância desse reconhecimento internacional.

Foi uma experiência muito enriquecedora para mim [estender a estadia], pois se eu tivesse concluído meu trabalho em Veneza e voltado imediatamente para o Brasil, onde a repercussão do evento foi limitada, talvez eu não compreendesse plenamente a importância desse prêmio. Eu comecei a notar o impacto quando os locais que eu visitava começaram a encher, as pessoas ficaram entusiasmadas e interessadas no que estava acontecendo. Reuniões foram agendadas em várias cidades, em universidades e em outros locais. Consequentemente, minha agenda, que originalmente consistia em palestras pontuais, se expandiu consideravelmente. Após minha volta, no ano passado, após receber o prêmio, viajei para oito países para dar palestras. E este ano já tenho outros compromissos marcados.

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IAB: Você destacou a importância de aproveitar a oportunidade para apresentar não apenas uma expressão artística, mas também uma posição política. Considerando essa perspectiva, como você vê o papel do poder público, da mídia e dos veículos de comunicação na promoção e valorização de iniciativas culturais e políticas como a sua exposição na Bienal de Veneza?

Gabriela de Matos: Hoje, quase um ano depois, percebo como nosso prêmio foi subestimado aqui no Brasil. Acho muito chocante, pois temos veículos de comunicação sérios e comprometidos, interessados no debate sobre a cultura arquitetônica não apenas nacionalmente, mas também internacionalmente, e que compreendem a importância desse diálogo. Para um prêmio como o nosso, conquistado na América do Sul, em um contexto europeu, é necessário um momento de reflexão e discussão. Não é algo que possamos alcançar facilmente; ocorreu porque apresentamos um debate quando as pessoas estavam receptivas e interessadas nele. Portanto, acredito que aproveitamos nossa oportunidade para apresentar essa curadoria não apenas como uma expressão artística, mas também como uma posição política. Ao analisar os outros pavilhões presentes na Bienal de Veneza e os pavilhões brasileiros anteriores, percebemos isso. Mesmo quando alguém escolhe ser omisso em relação ao tempo que representa, essa escolha também é política.

Se alguém opta por não abordar nenhum aspecto daquele momento específico, ainda assim está tomando uma posição política. Eu não acredito na neutralidade. Não existe neutralidade. Sempre estamos nos posicionando, mesmo quando não dizemos nada. Nós apresentamos esse trabalho exatamente nesse contexto europeu. O que me entristeceu foi perceber que, no Brasil, poderíamos ter agido como um “bom território colonizado que somos”, e pelo menos ter considerado: “Bem, então talvez devêssemos analisar essa pesquisa do Paulo e da Gabriela, afinal, eles ganharam um Leão de Ouro! Devemos dar atenção a isso.” Mas não! A dimensão colonial na produção de conhecimento e na mídia brasileira está tão enraizada, tão profundamente arraigada, que preferiu-se ignorar completamente.

E há também a questão de que estamos lutando duramente para realizar a exposição aqui no Brasil. Acreditamos que este é o lugar mais importante para sediá-la. Mesmo que a gente tenha ganhado uma premiação muito reconhecida na Europa e tenhamos tido reconhecimento internacional, aqui no Brasil ainda temos que lutar para conseguir trazê-la para cá, para que as pessoas daqui possam vê-la. E todos esses esforços foram realizados por mim e pelo Paulo Tavares. Paralelamente a essa questão da produção, ainda durante a Bienal, continuamos tentando levar as pessoas que contribuíram no pavilhão, para participarem lá, em Veneza, mas infelizmente não conseguimos. Foram várias tentativas frustradas, mas foi positivo ver que as pessoas envolvidas no projeto concordaram em participar porque acreditavam genuinamente conosco.

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IAB: Como sua jornada pessoal, desde os primeiros interesses até o engajamento político na arquitetura, influenciou sua perspectiva para a curadoria da exposição “Terra” na Bienal de Veneza?

Gabriela de Matos: Sempre fui uma pessoa entusiasta da cultura afro-brasileira, muito voltada para a questão da música, do teatro e das artes visuais. Na época da minha faculdade, participei de um coletivo de artistas e me envolvi em atividades culturais. Para mim, a questão da cultura sempre esteve muito ligada à arquitetura. Porém, na faculdade, eu tinha dificuldade em compartilhar esses interesses com meus colegas. A maioria deles não via relação entre arquitetura e arte. Porém, alguns poucos colegas que estavam comigo em iniciativas como o Diretório Acadêmico e o DCE tinham visões semelhantes. Desde aquela época, já me interessava pelo ensino de arquitetura e participava de atividades relacionadas.

Durante minha formação tradicional em arquitetura, mantive o interesse pelas artes visuais e pela cultura afro-brasileira. Em 2013, comecei a me aprofundar mais e a me interessar por quem eram as pessoas negras produzindo arquitetura. Foi em 2016, se não me engano, que participei de uma das edições do “Seminário Salvador e Suas Cores”, na Bahia, uma atividade do grupo de estudos étnico-raciais em arquitetura e urbanismo do PPGAU-FAUFBA. Esse momento foi transformador para mim, pois até então achava impossível relacionar arquitetura com raça, território e outras questões. Então, quando retornei a Minas Gerais, voltei interessada em descobrir mais sobre as arquitetas negras, pois me sentia extremamente isolada nesse contexto. Sentia-me sozinha na busca por entender como as pessoas estavam lidando com essas questões e sobrevivendo nesse contexto. Foi um período complexo para mim, mas também de grande descoberta e aprendizado. Logo, fui me envolvendo cada vez mais em questões políticas.

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IAB: Considerando sua experiência com o projeto Arquitetas Negras e a fundação do Instituto de Fomento à Arquitetura Afro-brasileira, como você vê o papel da arquitetura, pensada como expressão cultural e linguagem, especialmente em um contexto onde a diversidade e a inclusão são urgentes e essenciais? Na sua percepção, como essas iniciativas podem contribuir para repensar a produção arquitetônica no cenário atual e futuro?

Gabriela de Matos: O projeto Arquitetas Negras surgiu não apenas pela necessidade de ter dados e mapeamento, mas também pela compreensão de que, como diz Lélia Gonzalez, sem dados não podemos abordar as questões com seriedade nem criar políticas públicas. Portanto, a única coisa que pensei que poderia fazer sozinha no projeto Arquitetas Negras, era o mapeamento, já que ninguém poderia me impedir de criar um formulário e disponibilizá-lo para as pessoas responderem. A atividade acabou fomentando outra situação, já que as pessoas poderiam escrever seus relatos ali. Passei noites lendo esses relatos e refletindo sobre as melhores formas de lidar com cada situação. Isso foi em 2018, quando já tinha experiência em projetos de exposições de arte e estava envolvida nessa dimensão artística. Acredito, e continuo acreditando, que a arte é uma excelente forma de comunicar questões sérias. Às vezes, um texto pode parecer pesado demais, desestimulando a leitura, especialmente quando aborda temas como violência, que estão intimamente ligados à questão racial. No entanto, uma exposição pode permitir que as pessoas absorvam essas informações de uma maneira diferente e mais acessível.

Então, após realizar esse mapeamento, comecei a refletir sobre as conexões que poderiam ser estabelecidas com outras arquitetas negras. A partir dessas conexões, surgiram novas ideias e ações. Essas conexões se interligam porque o Arquitetas Negras é uma rede vasta, que não se resume a mim. O que está sob minha responsabilidade é o projeto Arquitetas Negras, pois quando ele começou, não tinha a estrutura de um instituto, era uma iniciativa. Esse projeto acabou orientando meu mestrado, onde percebi que não poderia abordar apenas a invisibilidade das mulheres negras na arquitetura sem discutir a invisibilidade da arquitetura afro-brasileira no contexto arquitetônico nacional. Nós, arquitetas negras, fazemos parte desse processo de invisibilização e violência, mas não somos todo o cenário. Essa invisibilidade remonta aos primórdios da arquitetura negra no Brasil, que foi construída a partir da diáspora e do conhecimento trazido por ela. Portanto, se no Brasil estamos envolvidos na arquitetura há mais de 500 anos, na África, essa tradição já existia há muito mais tempo. A história não começa apenas aqui no Brasil.

Iniciei esse resgate no meu mestrado e, a partir dele, explorei diversas linhas de pesquisa, descobrindo muitas coisas, incluindo a questão dos terreiros e a produção coletiva na arquitetura, isto é, os mutirões, ideia que foi criada nas favelas, principalmente por pessoas negras, pois essa é uma forma Bantu de se pensar e de se fazer arquitetura. Essa arquitetura só existirá se eu e a minha comunidade toda estivermos em bem-estar. Isso é a filosofia [africana] Bantu. A forma como produzimos arquitetura vem dessas raízes todas. E comecei a trazer isso para a minha prática.

Tenho um pequeno escritório de arquitetura em São Paulo, algo que considero incrível, dado que não sou nativa de São Paulo. Chegar aqui e estabelecer meu espaço sem sentir que estou competindo com alguém é uma conquista pessoal. Nunca imaginei que estaria competindo com outras pessoas em São Paulo. Vim aqui para realizar minha própria arquitetura. Portanto, ter pessoas interessadas em meu trabalho aqui é maravilhoso, pois me permite testar na prática o que venho estudando. Sou uma pessoa que valoriza tanto a teoria quanto a prática, e estou constantemente pensando em novas formas de projetar e repensar o espaço, experimentando essas ideias nas oportunidades que surgem.

Foi no ano passado, com o desdobramento do projeto Arquitetas Negras, junto às outras diretoras do Arquitetas Negras, presentes desde 2020, que são Audrey Carolini, Kaísa Isabel, Sheroll Martins e Thamires Mendes, que fundamos o Instituto de Fomento à Arquitetura Afro-brasileira. Isso está muito ligado à questão da cultura, devido à lacuna que sinto gigantesca, da capacidade de pensar e produzir arquitetura sem estar diretamente ligada ao mercado, sem se restringir à relação profissional e cliente. É importante para nós testar e pensar em outras formas de arquitetura, considerando-a verdadeiramente uma expressão cultural, e como uma linguagem que comunica um tempo. Acredito que a arquitetura é uma linguagem.

Assim como as artes visuais são uma linguagem, a arquitetura é um processo. Ela não pode ser pensada apenas como o resultado final, mas sim como todo o processo, desde quem a está criando, onde está sendo feita e para quem será utilizada. Embora esse discurso pareça óbvio, o que vemos na prática é que muitas vezes tudo é feito da mesma maneira. Em diferentes projetos, como uma residência, um espaço corporativo ou um espaço público, é comum seguir padrões pré-definidos, sem considerar a singularidade de cada contexto.

Estamos vivendo uma urgência terrível neste momento, onde precisamos encontrar soluções para questões de desigualdade que já identificamos, e precisamos encontrar essas soluções de forma rápida e econômica. As condições não são ideais para nós, arquitetas e arquitetos. É por isso que acredito que a cultura pode ser a chave para nos capacitar a pensar em outras formas de arquitetura.

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IAB: Considerando sua participação tanto no Instituto de Fomento à Arquitetura Afro-brasileira quanto no Instituto ZeroCem, que iniciativas ou estratégias vocês têm em mente para as questões relacionadas ao ambiente construído, como as mudanças climáticas, a desigualdade social e a invisibilidade da arquitetura afro-brasileira no país? Como você enxerga o papel desses institutos para esses desafios, especialmente em um contexto urbano complexo como o brasileiro?

Gabriela de Matos: Com o Instituto de Fomento à Arquitetura Afro-brasileira, buscamos proporcionar condições para que arquitetas e arquitetos possam explorar possibilidades através da linguagem arquitetônica, enfrentando as questões urgentes que enfrentamos atualmente e que tendem a piorar no futuro: questões climáticas, pobreza, desigualdades sociais e de classe. Para resolver isso, temos um projeto de criar uma residência nos moldes de uma residência artística. Por que precisamos criar essa oportunidade? Porque, ao contrário das artes visuais, nossa linguagem muitas vezes permanece na cidade, contando a história desse tempo. Portanto, precisamos pensar em outras possibilidades dentro dessa realidade opressora do dinheiro e do capital. Imaginem se pudéssemos pensar em outras coisas tendo bolsas, auxílios ou remunerações, onde possamos dialogar com pessoas de outras áreas também. Não acredito que a arquitetura deva ser feita apenas entre arquitetos. É importante esse diálogo com outras disciplinas para explorar novas possibilidades.

No Instituto de Fomento à Arquitetura Afro-brasileira, nosso objetivo é criar ações que abrangem desde residências mais práticas até residências mais conceituais e de ideias. Isso é especialmente importante porque a arquitetura afro-brasileira tem ainda menos oportunidades de se manifestar nesse contexto. Depois de cinco anos trabalhando no projeto Arquitetas Negras, conversando e entrevistando profissionais da área e sendo uma arquiteta negra no mercado, percebo que muitas vezes precisamos esperar por um cliente com uma mente mais aberta para considerar outras propostas. A simples presença de um arquiteto negro não garante que ele produzirá uma arquitetura afro-brasileira nos moldes modificados e reinventados pelos terreiros, quilombos e outras influências culturais do Brasil. Então, nosso objetivo é criar condições para que essa arquitetura afro-brasileira exista, seja coesa e tenha contornos. Afinal, só podemos criticar se tivermos algo para criticar. Portanto, planejamos produzir, escrever, criticar, teorizar e contribuir ativamente para o desenvolvimento e reconhecimento dessa expressão arquitetônica.

Com o Instituto ZeroCem, começamos a trabalhar a partir da ideia proposta pelo Fernando Túlio, que me convidou em 2020, enquanto estávamos na gestão do IAB/SP. A proposta me interessou muito, primeiro porque a dimensão da natureza e da questão climática já era uma curiosidade minha, e eu tinha vontade de colocar isso em prática de alguma forma. Conversei com o Túlio e percebi que poderia contribuir com o Instituto transformando as pesquisas e os dados que levantamos sobre a cidade em uma linguagem mais artística. Talvez pudéssemos apresentar isso em exposições ou até mesmo curar alguma exposição. Minha contribuição também envolve a perspectiva racial, pois faço parte da diretoria do ZeroCem e trago essa visão. O Instituto é interessante porque somos quatro arquitetos e dois advogados especializados em direito urbanístico na diretoria, o que nos permite ter uma visão ampla sobre o que seria um plano. Mesmo que o Instituto ZeroCem pense em iniciativas de alcance nacional, elas são concebidas a partir de experiências em territórios específicos, como comunidades em São Paulo, Belém ou outros lugares. Tentamos abordar esses territórios em suas complexidades e interseções, identificando camadas de problemas e questões, para então utilizá-las na formulação de planos em uma escala maior, com impacto nacional. Está sendo muito gratificante trabalhar com o Instituto ZeroCem nesse sentido.

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IAB: Antes de encerrarmos, gostaria de saber: quais foram suas principais inspirações ao longo de sua jornada na arquitetura e como elas influenciaram sua visão e prática profissional?

Gabriela de Matos: Meu pai é arquiteto e ele me inspirou bastante. Principalmente, apesar de ele ser formado no Rio de Janeiro, no final da década de 1980, numa época em que o título era apenas arquiteto, não arquiteto e urbanista. Ele tem uma visão da arquitetura ainda muito focada na construção de edifícios, mas ao mesmo tempo enxerga a arquitetura como cultura e arte. Eu nunca achei que era diferente. Gostava da arquitetura porque via nela uma forma única de expressão artística, e isso foi o que me inspirou a seguir essa carreira.

Minha irmã, por exemplo, optou por cursar artes visuais, e sua linguagem era diferente da minha, mas ainda assim estava imersa na cultura. Meu pai sempre me falava, e ainda fala até hoje, que não dá para estudar arquitetura sem ler determinados livros, ouvir certas músicas, assistir a determinadas exposições e visitar certos lugares. Ele enfatizava a importância de relacionar os estudos com o que estava acontecendo na cultura de forma geral. Por sorte, entrei na faculdade com essa visão, e embora a faculdade tenha tentado me desviar dela, não conseguiu. Mais tarde, percebi o privilégio de ter crescido em um ambiente tão diverso: meu pai é um homem branco e minha mãe é uma mulher negra de pele retinta, assistente social. Acompanhava minha mãe em visitas a casas em favelas, e através dessa experiência, pude ver de perto as desigualdades da cidade. Tinha essa dualidade em casa, com meu pai construindo para pessoas ricas enquanto minha mãe lidava com a pobreza e a falta de oportunidades. Isso me proporcionou uma visão realista da sociedade desde o início de minha formação, e principalmente após começar a considerar a questão racial na arquitetura, tudo mudou significativamente.