“O arquiteto precisa pensar fora da caixinha”, diz Rosana Corrêa

Data: 22/03/2017

Departamento: IAB RJ

A sócia diretora da Casa do Futuro, Rosana Corrêa, criticou o processo tradicional de gestão de projetos em evento na Casa do Arquiteto Oscar Niemeyer, sede do IAB-RJ. A arquiteta foi uma das participantes do debate “Gestão integrada de projetos e construção, sustentabilidade e inovação”, realizado na terça-feira, 21 de março. A discussão contou também com as contribuições dos professores do programa de educação continuada IAB-RJ Compartilha Eliane Sarmento, Emiliano Reis, Eduardo Ribeiro, Ivan Xavier, Andrés Passaro, Sonia Lopes, Lygia Niemeyer e Mariana Guimaraens.

Segundo Rosana, o arquiteto precisa pensar fora da caixa. “A gente está em um cenário de crise. Temos que aproveitar o momento para encontrar oportunidades. É urgente a necessidade de inovação nos nossos negócios, projetos e vidas pessoais”. A arquiteta analisou ainda dois temas: sustentabilidade e integração.

“Quanto custa a sustentabilidade? Quanto custa uma demolição sustentável, que você encaminha os resíduos para uma recicladora? O mercado diz que o custo varia entre 5% a 10% do valor de uma obra. Muitas vezes, o valor pode ser muito menor. Basta aplicar a sustentabilidade de maneira integrada e inovadora”, afirmou Rosana. Para a arquiteta, existe uma nova maneira de projetar que permite gerar inovação sustentável sem, necessariamente, aumentar o valor da obra.

O setor da construção gera 575 toneladas de resíduos sólidos por mês só no estado do Rio de Janeiro. O dado, apresentado pelo biólogo e professor do programa de educação continuada IAB-RJ Compartilha Emiliano Reis, é do Instituto Estadual do Ambiente (Inea). “A gestão dos resíduos da construção deve estar contemplada no projeto. Dois terços dos resíduos de uma obra são de entulho. Isso representa um desperdício de 20% dos materiais. Com o devido destino, os resíduos podem voltar à cadeia da construção e gerar renda”, explicou Emiliano Reis.

Estudos da Escola Politécnica da USP concluíram que, no Brasil, as perdas de materiais chegam a 8% do valor da obra e as perdas financeiras, incluído aí os custos de retrabalhos, chegam a 30%. “Um erro comum é a má compatibilização do projeto. Não raro encontramos falhas nos projetos. Essas falhas atrapalham todo o processo. Ao projetar, é preciso ter o objeto e o limite de custo bem definidos. Precisa-se também levantar todas as variáveis que vão interferir no trabalho”, defendeu o professor da UFF e integrante também do IAB-RJ Ivan Xavier.

Para Rosana, as inovações e os aspectos de sustentabilidade devem ser pensados na fase de formação e orientação do projeto. “O mercado diz que a sustentabilidade é cara. Ela se torna cara porque pensam em sustentabilidade quando o projeto está numa etapa avançada. Não conseguimos entrar num processo deficiente e dizer que vai fazer uma edificação de qualidade. Conforme avançamos na linha do tempo dos projetos, o potencial de economia é menor e o custo para gerar economia fica cada vez mais elevado”, afirmou.

Profissão em transformação

Uma metodologia de trabalho que tem ganhando destaque no Brasil é o Building Information Modeling (BIM). O processo de modelagem da construção com informação não é novo, surgiu em 1975. Através de softwares certificados, os profissionais desenvolvem seus projetos em ambiente 3D, de forma integrada e podem agregar uma enorme quantidade de informações, como o tipo de material utilizado, fabricante, vida útil, custo, entre outras. “O mundo é cheio de tecnologia. Os avanços tecnológicos impactaram o meio urbano, o nosso estilo de vida e a profissão do arquiteto. Na Inglaterra, os projetos são presentados em BIM obrigatoriamente. Nas Olimpíadas de Londres, todos os projetos foram apresentados em BIM. Na ocasião, observou-se uma redução de custo e de tempo das obras. No Brasil, Santa Catarina e Paraná determinaram que, até 2018, todos os projetos deverão ser apresentados em BIM”, destacou Eduardo Ribeiro, professor do programa IAB-RJ Compartilha.

Projetar e construir é, cada vez mais, uma atividade multidisciplinar. São muitas as variáveis que o arquiteto e urbanista deve levar em consideração ao projetar uma edificação. A utilização de modelos matemáticos pode ajudar nesse sentido. A bióloga e professora do curso de modelagem ecológica do IAB-RJ Compartilha Mariana Guimaraens foi categórica: toda construção, seja ela urbana ou rural, é uma intervenção no meio ambiente. “As técnicas de modelagem ecológica permitem quantificar os efeitos dos impactos de uma construção em ecossistemas. Através dos modelos matemáticos, é possível, por exemplo, verificar como uma obra impacta nas correntes oceânicas e na arrumação de areia”, explicou Mariana Guimaraens.

Além de possuir ideias inovadoras, trabalhar de forma integrada e aplicar os conceitos de sustentabilidade, o mercado exige também que o arquiteto e urbanista esteja preparado para gerenciar os próprios projetos. “É preciso desmistificar gestão de projeto como algo burocrático. Os profissionais não devem ficar assustados com essa tarefa. Precisamos gerenciar projetos para não deixar a vida me levar. Dentro dos nossos escritórios, isso é o caos. Precisamos saber qual tipo de projeto rende mais para a nossa realidade, definir corretamente os preços e apresentar prazos realistas ao cliente”, alertou Sonia Lopes, professora do curso de gerenciamento de projetos para arquitetos do IAB-RJ Compartilha.

A gestão de projeto foi um aspecto importante para o sucesso da construção do Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, que teve consultoria de sustentabilidade da Casa do Futuro. Concebido pelo arquiteto Santiago Calatrava, O projeto foi desenvolvido e gerenciado pelo Ruy Rezende Arquitetura, que montou duas equipes de trabalho, sendo uma exclusiva para cuidar do gerenciamento do projeto.

Sobre o IAB-RJ Compartilha

Lançado em novembro de 2016, o Programa de Educação Continuada IAB-RJ Compartilha surgiu como opção para aqueles que buscam uma formação complementar à formação acadêmica. O programa conta com um corpo docente composto por profissionais reconhecidos na área acadêmica e no mercado. Este ano, estão previstos a realização de dez cursos, são eles: gestão de pessoas na cadeia produtiva da arquitetura e construções sustentáveis; sustentabilidade para edificações e seu contexto – projeto e performance; gestão de resíduos sólidos na construção; introdução ao BIM; orçamento de obras; gerenciamento de obras; projeto – desenho paramétrico – fabricação digital; gerenciamento de projeto para arquitetos; requisitos de acústica da NBR 15575; e introdução à ecologia e modelagem ecológica.

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