Cidades Inteligentes em debate no IAB-RS

Autor: IAB-RS Data: 14/05/2015

Departamento: IAB RS

Especialistas da área de urbanismo participaram nesta quarta-feira (13/05) do debate “Cidades Inteligentes”, no Ponto de Cultura Solar do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB RS). A atividade integrou o ciclo de palestras Desafios Urbanos, promovido pelo IAB RS e teve mediação da jornalista Kátia Suman.

O evento contou com palestra de Paolo Bertaccini Bonoli, que falou direto de Milão, via Skype, sobre o projeto “Smart City Milão”. O italiano contou que a cidade é uma das poucas em seu país, que historicamente encarou o processo da modernidade. “Outras cidades italianas são muito ligadas a tradição”, disse. Bonoli também falou que o processo de modernização está muito conectado com a modernização dos automóveis, pois coincidem com símbolos oficiais da cidade de Milão. Como exemplo, Bonoli citou os símbolos da marca Alfa Romeo e Ferrari.  “É um coincidência que ocorre por muitos anos em Milão”, contou o italiano. Ele também citou o período dos anos 60 em que a cidade ganhou o metrô, porto, abertura de canais e parques. Nesta época, as avenidas principais da cidade, permitiam a circulação de automóveis. Hoje, estas vias se transformaram em espaços públicos exclusivos para pedestres. 

Ele também informou que Milão possui sistemas públicos de automóveis e bicicletas compartilhados. “Não existe vandalismo. O sistema é um dos mais desenvolvidos do mundo e as estações de bicicletas públicas estão disponíveis em diversos pontos da cidade”, informou Bonoli. Mas ele acrescenta que o sistema de ciclovias ainda não é eficaz, as pessoas pedalam entre os carros. Outro ponto abordado foi a questão de recuperação dos sistemas de canais que viraram aterros. Existem projetos de recuperação destes espaços. “A maioria dos cidadãos estão favoráveis a melhorias, existe uma cooperação determinante”, disse.

O designer Mário Verdi, falou sobre a qualificação da paisagem urbana da cidade e do sistema Citysys, voltado ao gerenciamento inteligente de patrimônio público geolocalizado. “Todo o discurso deste tema é voltado para as capitais. Mas e as cidades pequenas, como ficam?”, questionou. Para ele, existe este isolamento e os pequenos municípios ficam de fora. A ONU considera hoje a Internet como um serviço básico das cidades.

Verdi acredita que uma cidade inteligente é aquela capaz de entender seus problemas e planejar. “Estamos num momento de substituição de tecnologias flexíveis por tecnologias duras. Temos um planejamento urbano e social que interfere no nosso convívio com a cidade. Com o tempo ele gera uma cultura e ajuda a reavaliar este processo que temos de cidade. Hoje a gente sofre da questão de especulação de um lado e a falta de ousadia de um outro” afirmou.  Ele também observou que praticamente não temos mais conexão com o ambiente construído. “Isso alimenta essa visão equivocada da cidade”, disse.  Para Verdi, a poluição visual cria uma camada que sobrepõe a cultura local, que perde sua identidade. “O principal problema é a compartimentalização de um organismo sistêmico. Existe desarticulação entre as entidades e órgãos. Ações antagônicas. Vejo que o primeiro passo para melhorar isso é reconhecer e entender o organismo por inteiro, desenhando as interações entre as entidades e definindo ações e responsabilidades. É possível, temos que ver, mapear, entender, acreditar e agir. Nós pagamos por atitudes que foram tomadas sem planejamento e que precisam ser refeitas”, criticou o designer.

Fabrício Tarouco apresentou uma parte de sua tese de doutorado que tem como tema “A Metrópole que emerge dos Apps”. O coordenador do curso de design da Unisinos informou que seu estudo aborda as cidades criativas e o uso do softwares em espaços urbanos e o quanto eles avançam e dominam certas práticas. “Já atingimos a marca de 100 milhões de downloads baixados. Estudei Apps ligados a serviços urbanos, como mobilidade, saúde, coleta de lixo, táxi, realidade aumentada, localização geográfica, turismo, conexão, entre outros oriundos do dia a dia da cidade. Consegui algo em torno de 45 mil aplicativos com esse viés de criatividade”, destacou.

Tarouco disse que hoje vivemos uma espécie de acupuntura urbana, ou seja, cada aplicativo é como uma agulha em cada território, cada um com sua prática. Para ele, junto com esse novo instrumento de viver a cidade surge uma nova necessidade infraestrutura digital. “Precisamos de conexão, energia para carregar equipamentos. Temos dois grupos nas cidades: os “seguidores do wifi” e os “caçadores de tomadas””, brincou.

Ele ainda analisou uma versão pequena da cidade que pode ser acessada pelo celular, com um conjunto de símbolos, serviços, mapas, de qualquer lugar do mundo.  “Temos um versão poket de cada cidade no bolso em qualquer momento”, disse. Tarouco acredita que o conceito de geolocalização e geocodificação, identificando e mapeamento lugares, caminhos, distâncias e limites entre regiões, com várias camadas de referência, nos ajudam a tomar decisões, participar, mas não apenas como um usuário. “Hoje em dia, por exemplo, existe uma guerra entre taxistas e aplicativos, mas muitas pessoas já aderiram aos Apps, isso é uma tendência pois temos mais segurança por meio dos dados de avaliações de outros passageiros”, citou. “A gente passa a viver a cidade digitalmente”, concluiu.

O arquiteto Alexandre Pereira Santos falou da ferramenta SIG e das possibilidades de mineração de dados. Para Pereira, a natureza do fenômeno urbano sempre se modificou, sempre usamos as cidades como ferramentas de mediação e interação, independente da tecnologia.  “Cada um de nós está produzindo hoje uma geolocalização ou deixamos alguém fazer isso para nós. Essa é uma realidade geosocial”, destacou o arquiteto. Além disso, ele afirmou que toda essa tecnologia gera o aumento de possiblidades de análises avançadas. “Podemos, por exemplo, usar tecnologias de maneira aplicativa e direta para ajudar no planejamento urbano”, disse Pereira. Na questão dos dados, ele destacou que temos uma geração muito grande, mas a captação é por meios diferentes, cada um fazendo seu pedaço e compondo uma coisa nova.

As questões do aponderamento do espaço, na busca de transformá-lo em lugar, além da intervenção na escala humana, foram abordadas pelo arquiteto Leonardo Brawl. “Quero chamar atenção para o conceito do ativismo, que sofre os efeitos dos modelos tecnológicos. A tecnologia da informação está atendendo o quê e a quem?”, questionou Brawl. Para ele, isso tudo que existe nos ajuda, mas as mudanças a médio e longo prazo acabam ficando de fora.  “A cidade tem que se conectar com os cidadãos por meio de tecnologias sociais. Existem exemplos práticos de operação destas tecnologias, trazidas para o âmbito social, que são utilizadas para solucionar problemas”, informou. De acordo com Brawl, a tecnologia já está fazendo uma transformação social, mas com muitas falhas no impacto urbano. Ele acredita que tecnologia pode ser um recurso, mas deve chegar a população de uma maneira mais prática. Brawl lembrou que existem muitas pessoas que não têm acesso a informação nenhuma. “Tudo está ainda muito elitizado. Esse conceito não contempla todos”, criticou ele.

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