O último legado da Olimpíada

Autor: Luiz Fernando Janot

Data: 16/01/2017
A Olimpíada do Rio é hoje uma página virada na história da cidade. Felizmente, a boa gestão da prefeitura evitou que ocorressem os habituais desequilíbrios financeiros que levaram algumas cidades à bancarrota e outras a desistirem antecipadamente da sua candidatura. Afinal, lidar com recursos carimbados da ordem de R$ 38 bilhões — valor do investimento em nossa Olimpíada — exige competência e responsabilidade em qualquer lugar do mundo.
 
Mas, nem sempre é o que acontece. Alguns eventos internacionais desse porte tiveram prejuízos incalculáveis em razão da megalomania dos organizadores, associada aos oportunismos políticos e aos interesses das grandes empreiteiras. Decisões equivocadas no planejamento e na construção de algumas arenas esportivas para a Copa do Mundo de 2014 comprovam essa afirmação. Consórcios responsáveis pela administração dos nossos estádios já estão abandonando o barco.
 
Não é compreensível que o Estado se responsabilize pelos elevados custos desses eventos e ainda por cima fique com a obrigação de arcar com a manutenção dos indefectíveis “elefantes brancos” espalhados pelas cidades. O mundo contemporâneo não comporta mais este tipo de desperdício. Transparência, minimização de custos e sustentabilidade deverão determinar, daqui por diante, os parâmetros norteadores dos eventos futuros.
 
Por outro lado, não há cabimento assistir ao beneplácito do poder público para a concessão de financiamentos subsidiados para obras que não apresentam um retorno compensador para a sociedade. Nesse sentido, as equações financeiras que regem as parcerias público-privadas devem ser avaliadas com o devido rigor antes de o negócio ser concretizado. Não dá mais para o contribuinte pagar o prejuízo de investimentos mal planejados.
 
A estratégia de projetar equipamentos que possam ser desmontados, transformados e reconstruídos em outras localidades não deixa de ser uma ideia elogiável. Na origem desse processo estão os conceitos de walking city e plug-in-city, formulados pelo escritório Archigran, do arquiteto inglês Peter Cook — pasmem — na década de 1960. Londres adaptou com sucesso esses princípios nos projetos de alguns equipamentos esportivos para a Olimpíada de 2012.
 
Todavia, para garantir a economicidade desejada nesta tipologia construtiva, não basta denominá-la “arquitetura nômade”. Esta não é uma solução mágica que possa ser aplicada indiscriminadamente em qualquer circunstância. Para evitar decepções futuras, é preciso avaliar a viabilidade econômica das diversas etapas que constituem o processo de transformação e adequação dos equipamentos aos seus novos usos. Caso contrário, tal iniciativa não se justifica.
 
No caso do Parque Olímpico do Rio, a intenção era estabelecer uma parceria público-privada que se responsabilizasse pela adaptação, manutenção e administração futura das instalações esportivas. Apesar da contrapartida da prefeitura em investir R$ 165 milhões nos três primeiros anos e R$ 382 milhões nos 25 anos seguintes, somente uma empresa mostrou interesse em participar da licitação.
 
Diante desse impasse, a prefeitura acabou negociando com o Ministério do Esporte a gestão de duas Arenas Cariocas, do Centro Olímpico de Tênis e do Velódromo, bem como a desmontagem do Estádio Aquático e da Arena do Futuro para serem transformados, respectivamente, em duas piscinas e quatro escolas na região de Jacarepaguá. A Arena Carioca III, que será transformada em Ginásio Experimental Olímpico, continuará sob a administração municipal.
 
Em suma, além deste importante legado, há que se destacar a louvável iniciativa de transformar a Via Olímpica — sinuosa alameda que cruza toda a extensão do Parque Olímpico — em mais uma área de lazer para a cidade. Ao longo de seu trajeto, foram criadas áreas arborizadas, quadras esportivas, pistas de skate, equipamentos variados de ginástica, parquinho infantil, academia da terceira idade, entre outros atrativos. Seguiu-se o exemplo bem-sucedido dos parques de Madureira e Deodoro.
 
Se mantidos os padrões de qualidade, de conservação e de segurança, certamente, o carioca terá ao seu dispor mais um ambiente público propício para o convívio social e familiar. Espera-se que este último legado da Olimpíada venha contribuir efetivamente para elevar a autoestima da nossa população, atualmente abalada pela crise econômica que se disseminou pelo país.
 
Artigo originalmente publicado no jornal O Globo no dia 14 de janeiro de 2017 (clique aqui)

Autor: Luiz Fernando Janot

Mini currículo: Luiz Fernando Janot é arquiteto urbanista, conselheiro federal do CAU/BR e coordenador de concursos do IAB