Museu Nacional do Valongo

Autor: Washington Fajardo

Data: 13/07/2017
A inscrição do Cais do Valongo na lista de Patrimônio da Humanidade da Unesco é feito inimaginável para uma sociedade tão desigual, racista e com tamanha segregação espacial. Cidades brasileiras estão entre as mais violentas do mundo, mas o reconhecimento do Valongo é vislumbre de esperança. A luta histórica e altiva dos afro-brasileiros por reconhecimento, oportunidades e inclusão, sua generosidade e amor nos concederam um raro dia de alegria e de lições por meio desse título.
 
O Comitê do Patrimônio Mundial agradeceu o fato de o Brasil ter apresentado tal candidatura. Em um mundo onde a ignorância é cada vez mais celebrada como atitude política, oferecer num palco internacional uma prova material de violência contra a humanidade converteu-se em ato pleno de beleza, só capaz por uma sociedade avançada, por mais estranho que seja afirmar isso. Há vias de superação dentro da nossa identidade nacional rara, se conseguíssemos converter mais nossa memória em construção de futuro. Primeira lição.
 
O dossiê técnico da candidatura foi muito elogiado. Sinal evidente da qualidade dos nossos intelectuais e da nossa academia, que, quando toma o espaço público, saindo do claustro e do conforto da burocracia universitária, muda radicalmente a realidade. Segunda lição.
 
Também é evidência da qualidade dos servidores públicos dedicados, sempre tão ridicularizados pela babaquice que coloca o setor privado como salvador da pátria. O país precisa de grandes executivos públicos como de grandes empreendedores privados. Ambos sem privilégios. Mostra os bons serviços prestados ao Brasil e ao Rio pelos órgãos do patrimônio cultural. O Iphan na jovialidade dos seus 80 anos deveria separar-se logo do jovem e moribundo Ministério da Cultura (e Entretenimento) e ter autonomia de políticas e de orçamento, assumindo também os arquivos, as bibliotecas e os museus nacionais. O Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, o IRPH, que tanto pôde empreender nos últimos anos por ter alcançado tal rara liberdade de formulação e de execução de políticas mais contemporâneas para o patrimônio cultural, hoje está desprestigiado pela prefeitura. Vive vergonhosa redução orçamentária. Instituição preparada para os desafios da gestão do patrimônio mundial no Rio, agora com dois títulos da Unesco, não pode perecer. Terceira lição.
 
O Cais do Valongo da Humanidade exibe o acerto preciso da direção urbanística da cidade em voltar ao seu Centro Histórico, convertendo o Porto em lugar do desejo urbano. Assim perdeu velocidade o imaginário pela Barra e pela expansão continuada, e insustentável, da mancha urbana, surgindo uma nova utopia: o Centro do Rio reabilitado. Imagine, leitor, quantas outras belezas culturais teríamos se tivéssemos mantido sempre a cidade mais compacta, menos espraiada? Sabemos hoje mais sobre nossa História e sobre nós mesmos porque intervenções foram feitas na região central. A pesquisa arqueológica que revelou o Valongo é consequência de obra de melhoria da drenagem. Ou seja, quanto mais se dedica e se exige a reocupação do Centro, mais memória, mais autoestima e mais cidadania surgirá no processo. Portanto, conduzir a urbanização em direção à região das Vargens, ou Guaratiba, estimulando o crescimento para Oeste, não só fere o Plano Diretor como também promove cidadania mais violenta e feroz. Quarta lição.
 
Clique aqui para ler a íntegra do artigo do Fajardo no O Globo.

Autor: Washington Fajardo

Mini currículo: Arquiteto, sócio-proprietário da Desenho Brasileiro e da WAU Agência Urbana e ex-presidente do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade