A cidade como ela é

Autor: Luiz Fernando Janot

Data: 05/06/2017
A cada dia fica mais evidente a tendência do poder público de relegar ao segundo plano as atividades permanentes de planejamento urbano. Pensar e atuar na cidade de forma abrangente e integrada vem sendo substituído por intervenções pontuais localizadas. Observa-se, contudo, que esse tipo de intervenção pode gerar, também, impactos negativos em outras localidades.
 
No caso específico do Rio, a realização dos Jogos Olímpicos propiciou uma série de investimentos públicos e privados na Barra da Tijuca e arredores. Considerando que, de acordo com o último Censo, a população do Rio praticamente não cresce, era de se esperar que esses vultosos investimentos em infraestrutura e transporte, associados à extraordinária oferta de novos imóveis residenciais, iriam atrair moradores de outros bairros.
 
Uma das consequências negativas desse deslocamento populacional observa-se na decadência urbana e ambiental de alguns bairros da Zona Norte, onde sobressaem as casas vazias e o antigo comércio local sem meios de sobrevivência. Basta circular pelos subúrbios cariocas para constatar o quanto esta afirmativa é verdadeira. Na verdade, a evolução urbana do Rio mostra que raramente os bairros tradicionais receberam do poder público os cuidados e a atenção necessários.
 
Há que se considerar, também, a forte pressão exercida pela nova ordem global sobre os hábitos de cada indivíduo e do conjunto da sociedade. Os meios de comunicação costumam exaltar supostos eldorados urbanos onde se desfruta o presente sem qualquer preocupação com o passado e muito menos com o futuro.
 
Para compreender essa complexa realidade, devemos reconhecer o papel relevante da cultura na formação e transformação das cidades. A história mostra que os valores culturais são indissociáveis da vida urbana. Mesmo nas localidades mais pobres, onde as pessoas estão mais preocupadas com seus meios de sobrevivência, despontam extraordinárias formas de expressão cultural. O Rio de Janeiro tem sido pródigo nesse tipo de manifestação.
 
Conviver com diferentes grupos sociais passou a ser indispensável para entender os hábitos comportamentais da população. Principalmente em uma época em que o individualismo exacerbado estimula o indivíduo a fazer o que bem entende sem qualquer preocupação com a existência do outro. Não são poucos os inconvenientes decorrentes desse comportamento social desrespeitoso.
 
Do mesmo modo que a desordem urbana tende a comprometer o convívio nos espaços públicos, não há cidade que resista aos altos índices de violência. De uns tempos para cá, o Rio voltou a ser palco para a ação de bandidos que atacam a população nas ruas, nos ônibus, nas praias, nas praças e nos parques; de ladrões que assaltam lojas e residências à luz do dia; e de quadrilhas que roubam caminhões, automóveis, motos e bicicletas se nenhum receio. Com o agravante de que, ao reagir, a vítima é sumariamente executada. Em suma, não há urbanidade que sobreviva a tal disparate.
 
Para reverter gradativamente esse quadro desolador é preciso investir em políticas integradas de segurança pública, no âmbito municipal, estadual e federal. Deve-se, também, priorizar a criação de programas sociais que atendam às camadas mais pobres da população, especialmente os desempregados. Jovens precisam frequentar a escola e praticar atividades coletivas que despertem o interesse em vislumbrar meios de vida dissociados da criminalidade.
 
Lamentavelmente, deixamos de lado a utopia de um mundo mais justo em troca de um mundo excessivamente competitivo, no qual os valores econômicos e financeiros passaram a prevalecer acima de todas as coisas. Em decorrência, as cidades passaram a apresentar fortes contrastes sociais materializados em forma de ilhas de riqueza cercadas de pobreza por todos os lados. O abismo que separa essas camadas da população precisa ser superado antes que o tecido social se esgarce definitivamente.
 
Refletir sobre realidades diferentes daquelas que sonhamos desfrutar em nosso dia a dia pode ser uma maneira eficaz de compreender a complexidade que permeia a vida nas cidades. Certamente, esse desafio mostrará que a verdade de cada indivíduo nada mais é do que de um pequeno fragmento do conjunto de verdades coletivas. Apaziguar os ânimos dos arrogantes que se julgam donos absolutos da verdade talvez seja o melhor caminho para iniciar o processo de pacificação da cidade.

Autor: Luiz Fernando Janot

Mini currículo: Luiz Fernando Janot é arquiteto urbanista, conselheiro federal do CAU/BR e coordenador de concursos do IAB.